Qualidade

Cientistas detectam genes que fazem ‘controle de qualidade’ do genoma

Por Roberta Massa B. Pereira | 18.04.2016 | Sem comentários

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Um novo método para identificar genes responsáveis pelo “controle de qualidade” do DNA pode ajudar no diagnóstico e tratamento de vários tipos de câncer.

O trabalho, que combinou técnicas de bioinformática com análises funcionais, encontrou 182 genes do tipo GIS, sigla inglesa para supressores de instabilidade do genoma. Desses, 98 nunca haviam sido descritos antes.

“Isso tem potencial para levar a novas terapias, bem como a testes que podem predizer quão agressivo é um dado tumor de um paciente”, diz Sandro de Souza, pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e um dos autores do estudo, publicado na última edição da “Nature Communications”.

A pesquisa ajuda a ilustrar como o que se convenciona chamar de câncer na verdade é uma complexa série de doenças diferentes, que só têm em comum o fato de envolverem crescimento descontrolado de células que sofreram mutação.

(Isso reforça a noção de que dificilmente haverá uma pílula mágica capaz de resolver todo e qualquer caso, como os fãs da fosfoetanolamina querem fazer crer.)

Os pesquisadores se concentraram num fenômeno que se observa com grande frequência em alguns tipos de câncer, como o colorretal e o ovariano, mas não em outros, como a leucemia. É um embaralhamento forte do genoma da célula, referido tecnicamente pela sigla GCR, de rearranjo cromossômico grosseiro.

Ele acontece quando alguns genes responsáveis por manter o DNA todo organizado falham nessa função e induz ao surgimento de mutações, que por sua vez aumentam as chances de surgir um tumor maligno. Mas quais exatamente são esses genes, os tais GIS? Encontrar essa resposta era o objetivo principal do estudo.

Sob a liderança de Richard Kolodner, pesquisador do Instituto Ludwig para Pesquisa sobre o Câncer, em La Jolla, na Califórnia, o grupo se concentrou num primeiro momento no genoma da levedura Saccharomyces cerevisiae.

A caça aos tais genes não seria trivial, pois não é fácil bolar esquemas de laboratório capazes de revelá-los em culturas de células. Eis então a inovação que permitiu o sucesso: o trabalho começou numa “caçada virtual”, em computador. Parte desse trabalho foi realizada no Instituto Metrópole Digital, também da UFRN.

Usando técnicas de bioinformática aperfeiçoadas ao longo dos últimos anos, com a crescente capacidade computacional de processar dados genômicos, os pesquisadores “pescaram”, no genoma da levedura, uma série de possíveis candidatos.

Então, com esses genes na mira, partiram para testes práticos com culturas de células, a fim de confirmar sua função como supressores de instabilidade do genoma. Por vezes, chegaram a testá-los dois a dois. E o esforço compensou.

Foram descobertos 182 genes do tipo GIS, além de outros 438 que não são propriamente da mesma categoria, mas agem em concerto para que o sistema de preservação da integridade do genoma se mantenha funcionando.

Da levedura para o homem

Uma vez identificados os candidatos, o trabalho voltou para o computador, com a comparação entre os genes da levedura e os contidos no genoma humano.

Esta é uma das “assinaturas” mais claras da evolução das espécies –o fato de que muitos dos genes presentes em outros organismos também têm seus equivalentes no homem.

É isso que permite que estudos genéticos com outros organismos tenham um impacto importante na saúde humana. No caso do estudo em questão, isso ficou imediatamente claro.

Ao confrontar os genes GIS identificados com os contidos nos dados do Atlas do Genoma do Câncer (TCGA), os pesquisadores notaram que há uma correlação forte entre defeitos nessas sequências genéticas e o surgimento de cânceres como o ovariano e colorretal.

No caso ovariano, a correlação entre problemas com os GIS e a incidência da doença é de, no mínimo, 93%. No colorretal, o número cai para 66%, mas ainda assim é um indicativo importante.

Potencial

Num nível mais elementar, o estudo oferece mais lampejos sobre como funcionam certos tipos de câncer, provavelmente induzidos por mutações que levam ao colapso do sistema de controle de qualidade do DNA e ao surgimento de rearranjos cromossômicos grosseiros.

Segundo os autores, contudo, ele vai além disso –também abriria portas para o desenvolvimento de novos tratamentos e técnicas de diagnóstico e prognóstico.

“Há a possibilidade de esses genes serem alvos para possíveis terapias”, diz Sandro de Souza. “Se tivermos como restaurar a função desses genes, isso traz um potencial terapêutico.”

O pesquisador também destaca como eles podem oferecer pistas que ajudem a avaliar o nível esperado de agressividade de tumores.

“Quando esses genes estão mutados, os respectivos tumores apresentam maior taxa de mutação. Com isso, há maior probabilidade de que surja uma variação mais agressiva.”

Ainda é cedo para esperar um teste prático, entretanto. “Precisamos de estudos para confirmar e definir qual a assinatura preditiva exata”, assevera Souza.

O trabalho é um importante ponto de partida, mas ainda há muito a ser feito. “Estamos trabalhando agora em uma abordagem usando dados para cerca de 15 tipos diferentes de tumor e também estamos trabalhando nos pares de genes que parecem atuar de forma colaborativa”, conta o pesquisador brasileiro.

“Queremos entender como essas mutações nesses pares podem refletir características clínicas nos pacientes.

Fonte: Folha de São Paulo-18.04.2016

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