Gestão

Mosquito e crise pressionam gastos com saúde

Por Roberta Massa B. Pereira | 25.04.2016 | Sem comentários

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O Hospital da Restauração, em Recife, tem números superlativos. Trata-se da maior instituição hospitalar das regiões Norte e Nordeste. Tem 830 leitos. Realiza mais de 1 milhão de atendimentos ambulatoriais por ano.

Entre 2011 e 2013, seu faturamento aumentou de R$ 3,2 milhões para R$ 9 milhões, com a ampliação de atendimentos mais complexos. Mas a demanda avança numa velocidade muito maior. Pelo porte, tornou-se refúgio de famílias que estão perdendo emprego e, junto, os planos de saúde.

Houve aumento de 20% no atendimento, com pressão sobre os custos, que não é coberta na mesma velocidade pelos repasses da União e do Estado, ainda mais num momento de queda expressiva de arrecadação.

“Desde 2014, estamos com déficit – o ano vira e são 20% no vermelho – e não conseguiremos sair dele em 2016, o que é muito ruim, porque até os processos licitatórios têm pregões desertos, por falta de interesse dos fornecedores que temem não receber”, diz Miguel Arcanjo dos Santos Júnior, diretor do HR. “Seria preciso um aumento de 50% no volume de recursos para a instituição respirar.”

Como se não bastasse os efeitos da crise econômica, Pernambuco pena com uma crise sanitária. Foi acometida por surtos de novas viroses transmitias pelo Aedes aegypti. A tradução, ao pé da letra, para o nome do mosquito é “odioso do Egito”. Há quem o chame, logo de uma vez, de praga do Egito, numa alusão direta aos estragos que a criatura é capaz de produzir desde a sua identificação no século 18. Foi o transmissor de epidemias de febre amarela, por exemplo.

No Nordeste, mais especialmente em Pernambuco, ele passou a transmitir a zika. Na África, onde se originou, a virose tem sintomas leves. No Brasil, porém, proliferou uma variante mais agressiva do vírus, em especial para os fetos durante a gestação, provocando microcefalia nos bebês. Cerca de 75% dos casos confirmados de microcefalia por zika estão em Pernambuco.

A pediatra Danielle Cruz, coordenadora do Laboratório de Microcefalia do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, consegue fazer de cabeça o quadro de especialistas que será preciso reforçar o atendimento das crianças com microcefalia: neurologista, fonoaudiólogo, oculistas, fisioterapeuta, ortopedista, nutricionista, dentista e, isso, claro, sem falar nos equipamentos para exames e remédios. Muitos remédios. Alguns com valores inacessíveis para boa parte dos pais dessas crianças. Um exemplo. À medida que os bebês estão crescendo, passam a ter convulsões. Um dos remédios utilizados no tratamento é o Sabril, cuja caixa com 60 comprimidos custa cerca de R$ 280.

Aperto

 A alta dos gastos precisa ser acomodada num orçamento apertado. Os recursos para a Saúde no Estado, neste ano, somam R$ 4,1 bilhões. Pernambuco negociou com o governo federal para que, ao contrário do que ocorreu em outros Estados, não tivesse corte nos repasses.

Emergencialmente, conseguiu um repasse de R$ 2,2 mil para cada caso de criança notificada com microcefalia. Houve também a contratação de 2.560 novos médicos, de diversas especialidades para fortalecer atendimento. “Nossa maior preocupação agora é com a Chikungunya: não pode faltar medicação para dor”, diz Cristina Mota, secretária de Atenção à Saúde.

Chikungunya é o surto do momento. Tem mais de 15 mil casos notificados. O nome é autoexplicativo no idioma de origem. Significa “aqueles que se dobram”. Provoca fortes dores nas articulações, que podem persistir por um, dois anos. Os doentes permanecem semanas de cama. Para piorar, em alguns, o sistema imunológico, na tentativa de se defender o corpo da doença, ataca as terminações nervosas, fazendo que a doença evolua para outra enfermidade, a Síndrome de Guillain-Barré, que pode levar à paralisia dos membros e da face.

Em 2014, foram 45 pacientes com Guillain-Barré. Em 2015, mais que dobrou, indo a 105 casos. Apenas no primeiro trimestre já foram mais 45 casos. O tratamento por paciente prevê aplicações de imunoglobulina durante uma semana, ao custo de R$ 26 mil, cobertos pelo SUS. Segundo a médica Maria Lúcia Brito, chefe do Setor de Neurologia do HR, que até este mês concentrou o atendimento à doença, a tendência dos custos é aumentar: “Não param de chegar pacientes”, diz ela.

Fonte: Estadão-25.04.2016

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