Saúde

Sem água, luvas e remédios, hospitais da Venezuela entram em colapso

Por Roberta Massa B. Pereira | 16.05.2016 | Sem comentários

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O dia começou com os problemas de costume:escassez crônica de antibióticos, de soluções intravenosas e até mesmo de comida.

Então a cidade sofreu um blecaute, causando o desligamento dos ventiladores pulmonares neonatais na maternidade.

Os médicos passaram horas bombeando ar manualmente nos pulmões dos bebês doentes, mas, ao anoitecer, quatro recém-nascidos já tinham morrido.

“A morte de um bebê é o pão nosso de cada dia”, disse o cirurgião Osleidy Camajo, em Caracas, falando das consequências tenebrosas da falência dos hospitais da Venezuela.

A crise econômica do país explodiu em uma emergência de saúde pública que está custando a vida de inúmeros venezuelanos.

E isso é apenas uma parte do desmoronamento do país, tão grave que levou o presidente Nicolás Maduro a decretar estado de emergência e está levando as pessoas a temer que o governo entre em colapso.

Os hospitais viraram pontos de convergências das forças que dilaceram a Venezuela. Luvas e sabão desapareceram de alguns deles. Medicamentos usados no tratamento de câncer muitas vezes só são encontrados no mercado negro. Há tão pouca eletricidade que o governo opera apenas dois dias por semana, para poupar a pouca energia que resta.

No hospital Universidade dos Andes, na cidade de Mérida, não havia água suficiente para lavar o sangue da mesa de cirurgias.

Os médicos que se preparavam para operar usavam garrafas de água com gás para lavar as mãos.

“Parece que estamos no século 19”, disse um cirurgião do hospital, Christian Pino.

Estatísticas Devastadoras

As estatísticas são devastadoras. O índice de mortalidade de bebês de até 30 dias de idade multiplicou-se por mais de cem nos hospitais públicos do Ministério da Saúde, passando de 0,02% em 2012 para mais de 2% em 2015, segundo relatório governamental disponibilizado por parlamentares.

De acordo com o mesmo relatório, o índice de mortalidade de mães que acabaram de dar à luz nesses hospitais se multiplicou por quase cinco no mesmo período.

Na cidade caribenha de Barcelona, dois bebês prematuros morreram recentemente a caminho da principal clínica pública das redondezas porque a ambulância não tinha cilindros de oxigênio.

O hospital não tem aparelhos de raios-X ou de diálise renal, quebrados muito tempo atrás. Como faltam leitos, alguns pacientes ficam deitados no chão, encharcados em seu próprio sangue.

É como uma clínica de campo de batalha em um país que não está em guerra. “Algumas pessoas chegam aqui saudáveis e saem mortas”, disse o médico Leandro Pérez no pronto-socorro do hospital Luiz Razetti, em Barcelona.

Crise Geral

A Venezuela possui as maiores reservas petrolíferas do mundo. Quando o preço do petróleo estava alto, no entanto, o governo economizou muito pouco para os tempos de vacas magras.

Agora que petróleo ficou muito barato —o preço caiu mais ou menos dois terços desde 2014—, as consequências lançam uma sombra destrutiva sobre o país.

As filas para comprar alimentos, que já fazem parte da vida na Venezuela, andam se deteriorando em saques. A moeda nacional, o bolívar, não vale quase mais nada.

A crise é agravada por uma vendeta política entre o chavismo, que controla a Presidência, e seus rivais no Congresso.

Em janeiro, os adversários do presidente declaram uma crise humanitária no país. Neste mês, aprovaram uma lei para permitir que o país aceite ajuda internacional para apoiar o sistema de saúde.

“É um crime que nosso país tenha tanto petróleo assim, enquanto as pessoas morrem por falta de antibióticos”, diz a deputada Oneida Guaipe.

No entanto, Nicolás Maduro, o sucessor de Hugo Chávez, foi à televisão para rejeitar o esforço, descrevendo a iniciativa como uma tentativa de enfraquecê-lo e de privatizar os hospitais.

“Duvido que exista um sistema de saúde melhor que este em qualquer lugar do mundo, com a exceção de Cuba”, falou.

No ano passado as máquinas que bombeavam água para o hospital da Universidade dos Andes explodiram. Meses se passaram antes que fossem consertadas.

Sem água, luvas e antibióticos

Assim, sem água, luvas, sabão ou antibióticos, um grupo de cirurgiões preparou-se para fazer a excisão de um apêndice supurado, apesar de a sala de cirurgia ainda estar suja com o sangue do paciente anterior.

Mesmo na capital, apenas duas das nove salas de cirurgia do hospital infantil J.M. de los Ríos estão em condições de ser usadas. “Temos pacientes que morrem por falta de medicamentos, crianças morrendo de desnutrição e pessoas que morrem por falta de médicos”, lamentou uma cirurgiã do hospital, Yamilla Battaglini.

Mesmo nesse cenário de hospitais em falência, o Hospital Luiz Razetti, de Barcelona, é um dos casos mais notórios do país.

Em abril, as autoridades destituíram e prenderam seu diretor, Aquiles Martínez. De acordo com a mídia local, ele teria sido acusado de roubar equipamentos que deveriam ser do hospital, incluindo aparelhos de tratamento de doenças respiratórias, soluções intravenosas e 127 caixas de medicamentos.

Às 22h de uma noite recente, o médico Freddy Díaz percorreu um corredor que virou uma enfermaria improvisada de pacientes sem leitos. Alguns seguravam suas ataduras ensanguentadas e, do chão, imploravam por ajuda. Um paciente trazido pela polícia estava algemado a uma maca. Baratas fugiam pela porta aberta do almoxarifado.

Díaz anotou os dados médicos de um paciente no verso de um extrato bancário que alguém tinha jogado no lixo. “Estamos sem papel”, explicou.

No quarto andar, sua paciente Rosa Parucho, 68, era uma das poucas que tinham conseguido um leito, mas o colchão em decomposição deixara suas costas cobertas de feridas.

Mortes à espreita

Esse era o menor de seus problemas, contudo: Parucho, que é diabética, não podia fazer a diálise renal de que precisava porque os aparelhos de diálise estavam quebrados. Uma infecção já atingira seus pés, que naquela noite estavam enegrecidos. Ela estava entrando em choque séptico.

Parucho precisava de oxigênio, mas não havia oxigênio disponível. Suas mãos se contraíam e seus olhos se reviravam. “As bactérias não estão morrendo, estão se multiplicando”, disse Díaz, explicando que havia meses não se encontravam três dos antibióticos de que a paciente precisava. Ele fez uma pausa. “Vamos ter que amputar os pés.”

Três parentes liam trechos do Velho Testamento ao lado de outra paciente inconsciente. Ela chegara ao hospital seis dias antes, mas, como o aparelho de tomografia estava quebrado, dias tinham se passado até ser descoberto o tumor que tomara conta de um quarto de seu lobo frontal.

Samuel Castillo, 21, chegara ao setor de emergências precisando de sangue. Mas os estoques de sangue tinham acabado. O governo tinha decretado feriado para poupar energia, e o banco de sangue só recebia doações em dias úteis. Castillo morreu naquela noite.

Há dois meses e meio, o hospital não tem meios de imprimir radiografias. Os pacientes precisam usar smartphones para fotografar as radiografias e então levá-las ao médico indicado.

“Parece tuberculose”, disse um médico do pronto-socorro, olhando para a radiografia de um pulmão no celular. “Mas não sei ao certo. A qualidade da imagem não é boa.”

Biceña Pérez, 26, procurava alguém que lhe desse ouvidos. “Será que alguém pode atender meu pai?”, perguntou. José Calvo, 61, seu pai, tinha a doença de Chagas, causada por um parasita. Mas o medicamento receitado para ele tinha acabado, e Calvo começou a apresentar falência cardíaca.

Seis horas depois de sua filha apelar por ajuda, ouviu-se um grito na sala de emergência. Era a irmã de Calvo. “Meu amor, meu amor”, gemia. Calvo tinha morrido.

Sua filha caminhava sozinha pelo corredor do hospital, sem saber o que fazer, com as mãos cobrindo seu rosto. “Por que o diretor do hospital roubou os equipamentos?” repetia. “De quem é a culpa, me diga?”

Fonte: Folha de São Paulo-16.05.2016

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