Gestão

Controle digital pode evitar 43 mil mortes por erro de medicação

Por Roberta Massa B. Pereira | 25.08.2016 | Sem comentários

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Num setor que depende fundamentalmente de reputação, como o de cuidados com a saúde, faz sentido que hospitais privados citem a segurança dos pacientes como o principal motivo para investir em alta tecnologia de controle de medicamentos.

Não é pouco dinheiro gasto. O equipamento robotizado para separar doses do Sírio Libanês (região central de São Paulo) custou R$ 8 milhões e o complexo sistema integrado de máquinas e programas que controlarão todas unidades do Albert Einstein (zona sul de São Paulo) vai consumir investimentos de até R$ 180 milhões.

Também não é dinheiro a fundo perdido: os cálculos mostram que há ganho de eficiência e redução de custo suficiente para recuperar o que foi gasto e, no médio prazo, elevar os lucros.

Mas, do ponto de vista da segurança do paciente, a implantação de códigos de barra e controles digitais é vista como fundamental por entidades que auditam os hospitais e conferem selos de qualidade.

Isso ocorre porque os sistemas —aliados a uma atuação efetiva de farmacêuticos— consegue reduzir a praticamente zero erros de medicação que, segundo estudos no Brasil e lá fora, não são incomuns.

Um estudo da USP realizado em 2010 analisou 5 hospitais universitários e contabilizou 30% de erros nas administrações de medicamentos, dos quais 77,3% em horário errado, 14,4% em dose errada, 6,1% pela via errada, 1,7% pela administração de medicamento não autorizado e 0,5% com troca de pacientes.

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O estudo analisou 4.958 administrações de dose por via endovenosa e classificou 1.500 erros.

Nos Estados Unidos, a Nortwesthern University avaliou um hospital universitário de 600 leitos e encontrou erros na administração de medicamentos que afetavam quase 80% dos pacientes do grupo de controle (em que nenhum tipo de cuidado especial ou mudança na operação era feito).

Foram 12 tipos de falhas classificadas, que incluíam receitas erradas ou mal interpretadas (muitas vezes porque ilegíveis), falta de prevenção a alergias ou interações entre remédios, dosagens maiores ou menores que o necessário, dadas em horário incorreto, ou por menos ou mais tempo que o prescrito.

O estudo, publicado em 2002 no “American Journal of Health-System Pharmacy”, tinha como objetivo medir o impacto da atuação de um farmacêutico na prevenção de erros. No grupo que recebeu esse acompanhamento especializado, os erros também ocorriam, mas a presença do farmacêutico interrompia a falha a tempo e impedia que o paciente fosse prejudicado.

Outro levantamento feito em 2011 na unidade psiquiátrica do Hospital Johns Hopkins encontrou erro de medicação em 28 de cada 1.000 atendimentos.

A instituição adotou um sistema informatizado para combater as falhas, e o número caiu para 3,4 erros por 1.000 (queda de 88% no número de erros).

Levantamento divulgado pela empresa de logística hospitalar UniHealth com base em dados de seus clientes aponta redução de 94% no número de remédios dados em hora errada com o controle controle digital.

A porcentagem de falhas por administração no horário errado passou de 32% para 2% e a de remédios não prescritos caiu de 4% para 0,75% no caso de pacientes internados. Nas UTIs, a queda foi de de 24% em relação aos horários de administração em UTIs e de 3,5% para 0,26% na administração de remédios não prescritos.

As falhas de medicação podem afetar até 20% dos pacientes em países desenvolvidos, segundo estudo sobre o setor de healthcare “Strengh in Unity” da consultoria McKinsey, feito em 2012.

“As taxas devem ser bem maiores nos países em desenvolvimento e a recente crise econômica deve agravar o problema”, diz o relatório.

A partir de entrevistas com 80 executivos de hospitais, a consultoria estimou até 100 milhões de pessoas afetadas por esse tipo de erro em todo o mundo em 2011, resultando em perdas de até US$ 115 billhões com processos e cuidados adicionais prestados às vítimas.

Pelo levantamento da McKinsey, as principais causas de erros de medicação ocorrem na prescrição (39%), na administração do remédio (26%), no envio ou preparo dentro do hospital (21%) e na transcrição da receita (14%).

A consultoria aponta que a introdução de códigos de barra reduziu em até 75% os erros de medicação em hospitais holandeses. Extrapolando um percentual de 50% para o setor hospitalar de forma global, seriam poupadas até 43 mil vidas e até US$ 58 bilhões em todo o setor.

Medidas simples como prescrever a medicação num computador já reduzem enganos, afirmam órgãos que acompanham segurança hospitalar, como o que elabora o Hospital Safety Score.

A Anvisa não adota a definição de “erro médico”, pois entende que as falhas decorrentes da assistência à saúde não são restritas aos profissionais médicos e por definição, em termos de segurança do paciente no Brasil, evento adverso é um incidente que resulta em dano ao paciente.

O erro de medicação é um tipo de incidente ou evento adverso relacionado ao uso de medicamentos, que tem a característica de ser prevenível ou evitável, isto é, nem sempre causa dano ou lesão, mas pode ser prevenido pelo conhecimento de suas causas e estabelecimento de medidas que evitem a sua recorrência. Essas medidas são chamadas de barreiras.

No Brasil, nem o Conselho Federal de Medicina, que acompanha o trabalho médico, nem a Anvisa (agência nacional de vigilância sanitária) têm levantamentos sobre o número de erros médicos, nem sobre a participação de erros de medicação nesses erros.

A Anvisa ressalta que uma das dificuldades para ter dados conclusivos é a grande subnotificação nacional por parte dos serviços de saúde.

Em 2013, uma portaria (n° 529) do Ministério da Saúde e uma resolução (RDC 36/2013) da Anvisa estabeleceram o controle desses erros como estratégico para a segurança do paciente.

O órgão, em parceria com o Ministério da Saúde, a Fiocruz e a FHEMIG, criou um protocolo de segurança que “recomenda a implantação de sistemas seguros, organizados e eficazes de dispensação para reduzir a ocorrência de erros, privilegiando a dispensação por dose individualizada e unitária, com controle por código de barras ou equivalente superior, de modo a assegurar a rastreabilidade do lote, fabricante e validade dos medicamentos e produtos para a saúde”.

O Sistema de Notificação em Vigilância Sanitária (Notivisa) identificou no ano de 2015, 31.786 “eventos adversos associados à assistência à saúde” (erros) em todo Brasil. Desses, 1.143 envolvem medicamentos.

Fonte: Folha de São Paulo-25.08.2016.

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