Saúde

EUA investem US$ 30 milhões em projetos contra zika

Por Roberta Massa B. Pereira | 26.08.2016 | Sem comentários

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Um “campo de força” de baixo custo capaz de impedir a passagem de mosquitos, sandálias tratadas com inseticida que evitam picadas de insetos por seis meses e uma armadilha inteligente que identifica o Aedes aegypti pelo bater de suas asas estão entre os projetos de combate ao vírus zika que receberão um total de US$ 30 milhões da Usaid, agência do governo dos Estados Unidos de combate à pobreza.

A Usaid anunciou recentemente as primeiras 21 propostas vencedoras do programa (uma nova rodada de contemplados deve ser divulgada em breve). Uma delas, a da armadilha inteligente, foi bolada por pesquisadores do ICMC-USP (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP de São Carlos) e é a única ideia de cientistas brasileiros a ser aprovada por enquanto.

“Sabe-se que 80% dos locais de reprodução do Aedes aegypti estão em propriedades privadas, então a chave é motivar as pessoas a fazer o controle dentro das casas delas”, diz Gustavo Batista, coordenador da pesquisa.

Visto de fora, o sistema idealizado pela equipe da USP lembra um samburá (o recipiente de tela usado por pescadores para guardar peixes recém-pescados).

Dentro da armadilha, temos a isca –uma fonte de dióxido de carbono, gás liberado pela respiração que atrai os mosquitos sequiosos de sangue humano–, um ventilador estrategicamente posicionado, papel adesivo e um sensor a laser.

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Quando algum inseto voador se aventura lá dentro, o movimento de suas asas interrompe parcialmente a passagem do laser. É justamente o ritmo do voo –típico de cada espécie– que permite saber que o intruso é um A. aegypti, e não uma abelha inocente, digamos. No segundo caso, o inseto é automaticamente devolvido à natureza; no primeiro, o mosquito da dengue é empurrado pelo ventilador rumo ao papel adesivo. A precisão do sistema é da ordem de 99%.

A captura em si, porém, não é o mais importante. O sistema vai contabilizar os mosquitos capturados e repassar essa informação para um aplicativo de smartphone do dono da casa, via tecnologia Bluetooth.

“A partir daí, podemos sugerir medidas bem simples, como esvaziar recipientes de água após uma chuva. Uma semana depois, o sistema vai fazer uma nova contagem dos mosquitos capturados e informar se as ações deram resultado”, explica Batista, cujo projeto recebeu da Usaid um financiamento de US$ 500 mil pelos próximos dois anos.

Os dados também poderiam ser enviados pelo aplicativo para órgãos de vigilância epidemiológica, criando uma espécie de mapa colaborativo da presença do inseto em determinada região, desde que a pessoa que baixou o aplicativo aceite formalmente compartilhar os dados. Antes de chegar a esse estágio, porém, ainda é preciso refinar alguns detalhes da armadilha, como, por exemplo, o uso de gás carbônico.

“Você precisa ter um tanque de gás com regulador de pressão, o que seria ultracomplicado em grande escala”, diz Batista. Uma opção mais simples, que está sendo projetada em parceria com a empresa Isca Technologies, é um atrativo sintético baseado em odores florais – isso porque o principal alimento dos mosquitos é, na verdade, o néctar de flores (as fêmeas usam o sangue apenas como alimento especializado para a maturação dos ovos). “Se isso funcionar em campo, teremos uma armadilha bem mais simples.”

Proteção chocante

Já a equipe de Krijn Paaijmans, do Instituto de Saúde Global de Barcelona, tropeçou por acaso na possibilidade de criar um “campo de força” antizika. Berta Domenech, pós-doutoranda do grupo, estava tentando capturar mosquitos com eletrostática, tentando fazer com que grudassem numa rede, quando descobriu que o campo elétrico na verdade estava repelindo os bichos –eles mudavam seu padrão de voo para se afastar da fonte eletrônica.

A proposta do grupo da Espanha é refinar essa propriedade por meio de campos elétricos que variem de forma aleatória a sua força e frequência, de maneira que os mosquitos não consigam se acostumar com as emissões.

Sistemas do tipo seriam acoplados a telas, caixas portáteis e hastes, de maneira a proteger uma área específica, como um jardim ou uma casa. Eles também estão planejando criar variações que funcionem em locais sem rede elétrica, com a ajuda de baterias solares.

Na Tanzânia (África Oriental), um grupo do Instituto de Pesquisa de Ifakara resolveu apostar numa solução de baixíssimo custo ao propor chinelos e sandálias impregnados com doses duradouras de inseticida. Eles argumentam que seria possível evitar o uso constante e trabalhoso de repelentes no corpo com essa abordagem, protegendo os pés e tornozelos, áreas do corpo muito visadas pelo aedes.

Dos 21 projetos, 13 são dos próprios EUA. A Austrália, que também sofre com epidemias de dengue e investe em pesquisas contra as doenças provocadas pelo aedes, teve três projetos incluídos na lista.

Um deles é sobre o uso de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia, da Universidade Monash, em Melbourne. A bactéria “vacina” o mosquito contra dengue, mostram estudos. Pesquisadores brasileiros, da Fiocruz de Belo Horizonte, mostraram em maio deste ano que a bactéria diminui muito e até elimina o risco de transmissão do vírus da zika.

Fonte: Folha de São Paulo-26.08.2016.

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