Gestão

Saúde pública pode sair da campanha para eleição municipal pior do que é

Por Roberta Massa B. Pereira | 12.09.2016 | Sem comentários

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A saúde pública padece de um problema semelhante ao dos transportes públicos: quem não usa tem uma imagem muito pior do que a avaliação de quem efetivamente utiliza.

Com isso, uma parcela importante da sociedade só enxerga a rede pública com um telescópio distorcido, a imprensa, sempre crítica como deve ser, enquanto vê a rede particular pelas lentes da publicidade, sempre elogiosa, como é sua função.

“Boa notícia não é notícia”, diz o ditado. Portanto, os jornalistas só vão às unidades do sistema gratuito, pago pelos impostos, para tratar de problemas.

As pesquisas de opinião, como do Datafolha e Ibope, tampouco ajudam: misturam a avaliação de quem usa com a de quem não usa. Uma visão contamina a outra.

A eleição amplia o efeito negativo das lentes da imprensa: políticos em campanha atacam os serviços públicos prestados pelas administrações no poder, como forma de se afirmar como opção “a tudo que está aí”.

Dica de leitura: Planejamento Estratégico em Saúde.

O resultado é que a cada eleição corremos o risco de piorar o sistema de saúde em vez de melhorar. Agora mesmo, a saúde sofre a ameaça de novas ideias mirabolantes.

É uma bobagem acreditar que um candidato possa criar solução espetacular que milhares de especialistas dedicados integralmente ao tema nos últimos 50 anos não tenham conseguido criar.

É como imaginar que um novo piloto possa assumir o avião em pleno voo e inventar um caminho melhor para ir ao destino.

As melhores soluções para o sistema de saúde brasileiro saíram do debate intenso de gestores de diferentes partidos; e têm atravessado bem tanto administrações de um grupo quanto de seus adversários.

Um exemplo claro de ideia suprapartidária: a gestão de unidades de saúde estatais por Organizações Sociais da sociedade civil, implantada em São Paulo durante o governo Covas (1995-2001), adotada por administrações de direita e de esquerda, em todo o Brasil.

Outro caso: as unidades de pronto atendimento criadas em meados da década passada para desafogar os prontos-socorros. Surgidas em São Paulo, em 2005 (governo Serra), com o nome AMA, foram adotadas pelo governo Lula, sob o nome UPAs, foram implantadas em vários municípios do país, sempre com efeito benéfico.

As boas soluções não têm cor partidária e nem são criações inéditas de um candidato ou outro; surgem de estudos feitos por profissionais dedicados ao tema.

Já a má influência da política pode ser notada nas propostas constantes de construção de novos hospitais públicos em São Paulo.

A cada eleição, os administradores são cobrados por não construir hospitais em áreas da cidade; candidatos voluntariosos prometem resolver a demanda. Eleitos, ficam prisioneiros de uma promessa equivocada.

A construção de um hospital custa cerca de R$ 200 milhões; e sua manutenção, cerca de R$ 100 milhões/ano. Cada hospital novo aumenta o desequilíbrio do sistema; e, demagogicamente, provoca novas demandas em outros locais.

A origem desse equívoco bilionário é o casamento entre dois enganos: a visão estatizante de grupos de pressão (como sindicatos, partidos e ONGs) e a demanda paroquial de eleitorados locais na periferia.

São Paulo não necessita novas unidades de saúde, ainda mais em tempo de crise, mas gerir melhor as que tem. Candidatos que propõem aumentar os custos do orçamento de saúde iludem seus eleitores.

Fonte: Folha de São Paulo-12.09.2016

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