Saúde

Paciente sobrevive a complexo transplante de múltiplas vísceras

Por Roberta Massa B. Pereira | 30.09.2016 | Sem comentários

“Toda hora que tocava o telefone, eu achava que era a minha vez”, lembra Roseli Machado, 41, de Cordeirópolis (SP).

A perda de apetite, os enjoos frequentes e o crescimento da barriga deram o alerta de que algo não ia bem com a sua saúde.

Em pouco tempo, ela descobriu ter ascite (ou barriga d´água), que é o acúmulo de líquido no abdome.

Por meio de uma amiga, conseguiu uma consulta no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Não havia dúvida: era necessário um transplante multivisceral –”troca” de vários órgãos do paciente com o de uma pessoa falecida.

O “pacote” a ser recebido por Roseli deveria incluir fígado, intestino, estômago e pâncreas.

Era preciso esperar. “Os médicos me deixaram ir para casa, mas me fizeram prometer que, quando ligassem, eu iria para o hospital”, lembra com bom humor.

Dos seis procedimentos até então realizados no Brasil, ninguém sobreviveu. “Depois do choque inicial, decidi, sim, fazer. E falei que seria a primeira a permanecer viva”.

Em julho, o telefone finalmente tocou: “Seu doador chegou; venha já”, pediu o hospital.

“Fui para a cirurgia tranquila e feliz. Não tive medo e em nenhum momento achei que fosse morrer”, lembra Roseli, que teve alta depois de 80 dias internada.

“Sei a dor que é a perda de um ente querido, mas a família teve uma atitude linda, maravilhosa para a vida de alguém que estava esperando”.

De acordo com Ministério da Saúde, não há registro oficial para as pessoas se declararem doadores de órgãos no Brasil –a única alternativa é a autorização da família.

“Vou cuidar bem de tudo que concederam. E, quando morrer, se puder aproveitar meus órgãos, pode doar tudo”, diz Roseli.

Diferentemente de Roseli, em alguns casos, o órgão vem de alguém vivo e saudável.

Entre vivos

É o caso de Sophia, de 10 meses, que, mesmo com o pouco tempo de vida, já precisava de um novo fígado.

Como o pai era muito velho para doar e a mãe tinha tipo sanguíneo incompatível, a saída foi recorrer à fila de doação, ordenada pela gravidade dos pacientes.

Sophia conseguiu o órgão de uma criança que havia morrido, mas, no dia D, alterações nos exames inviabilizaram o procedimento.

“O fígado acabou indo para o próximo da fila”, lembra a mãe, Isleila Vieira, 35. Foi aí que uma tia, compatível, se ofereceu.

O problema era o peso da mulher, que precisava emagrecer para se submeter à cirurgia.

“O transplante intervivos é feito com fígado parcial. Tira-se um segmento pequeno do fígado do doador para colocar no bebê.

Normalmente, esse segmento representa um terço do órgão do doador, o suficiente para um transplante de sucesso”, diz João Seda Neto, cirurgião pediátrico do hospital Sírio-Libanês.

Enquanto a tia perdia peso, o estado de saúde da bebê se agravava. Mas a história teve final feliz.

A tia conseguiu emagrecer. O desafio de Isleila agora é escrever um livro para tranquilizar outras mães.

Números

Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o ano de 2016 registrou aumento no número de doadores efetivos de órgão nos dois primeiros trimestres do ano –de 13,1 por milhão de habitantes para 14 por milhão.

Mas esse número ainda está abaixo do esperado para o período, de 16 por milhão.

Já a quantidade de transplantes realizados caiu no 2º trimestre, ao passo que o número de brasileiros na fila por um órgão aumentou, se comparado aos dados do 1º semestre de 2015, de 32 para 33 mil.

Os transplantes mais aguardados são os de córnea, rim, fígado, coração, pulmão, pâncreas e intestino.

Fonte: Folha de São Paulo-30.09.2016.

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