Opinião

Saúde não deve ser usada como moeda para obtenção de apoio político

Por Roberta Massa B. Pereira | 09.11.2016 | Sem comentários

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Na última sexta-feira (4), após palestrar sobre a situação na saúde municipal do Rio de Janeiro, o secretário da pasta, Daniel Soranz, foi aplaudido de pé por centenas de médicos de família do Brasil e do mundo.

Um desavisado poderia supor que todos os que ocupavam aquele auditório no Rio Centro, na zona oeste carioca, estavam malucos. Como assim? A saúde do Rio merece aplausos?

Acreditem, senhores, merece sim. Pelo menos no que diz respeito à atenção primária.

Nos últimos oito anos, a cidade saiu de 3,5% de cobertura da saúde da família (em 2008), para 65% neste ano, com previsão de chegar ao fim de dezembro com 70%.

O município tinha 68 equipes em 2008 e hoje são 1.207. Foi a maior expansão de todo o país. São cerca de 1,2 mil equipes cuidando de 4 milhões dos cerca de 6,5 milhões de cariocas.

Nesse período, a proporção de internações hospitalares causadas por doenças como hipertensão e diabetes caiu 38,5% (de 31,9% para 19,6%).

A explicação é simples: hoje 85% dos hipertensos e diabéticos têm um acompanhamento regular em uma das clínicas de família do município, muitas das quais contam, inclusive, com academia de ginástica.

Confesso que, em um primeiro momento, desconfiei da boa notícia. Afinal, a imagem coletiva que temos da saúde pública do Rio é de um completo caos.

Qualquer coisa diferente daqueles hospitais lotados de macas nos corredores soa publicidade ou texto de assessoria de imprensa.

Decidi ir ver com meus próprios olhos. Na companhia de grupos de médicos brasileiros e de outros países, circulei por algumas clínicas de família na Barra e na Rocinha.

A maior favela da América Latina, conversando com usuários.Tive que dar minha mão à palmatória.

No geral, as pessoas gostam muito do cuidado que recebem. Todas têm prontuário eletrônico e sabem na ponta da língua o nome do seu médico de família e da sua enfermeira.

O modelo foi inspirado em programas já existentes na Inglaterra, Canadá e Portugal. Nem vou citar Cuba para não vociferarem que isso é “coisa de comunista”.

Entre os médicos estrangeiros, a maior surpresa foi saber que há dentistas nas equipes de saúde da família, coisa rara nos serviços públicos da Europa.

O processo de adesão a uma dessas clínicas é bem simples: basta entrar no site da secretaria municipal do Rio, digitar um endereço para saber qual clínica se deve ir e qual o nome do médico e do enfermeiro responsável pelo cuidado.

É claro que nem tudo são flores. Os usuários reclamam da dificuldade de marcar consultas com médicos especialistas. Isso pode demorar meses.

O acesso aos especialistas e a exames médicos passa necessariamente por um sistema de regulação de vagas.

Os funcionários reclamam da precarização e da instabilidade dos contratos de trabalho feitos por meio de Organizações Sociais.

Dizem que isso gera uma alta rotatividade, o que impede o vínculo com o paciente, que é um dos pilares do programa de saúde da família.

Fora essas queixas mais do que pertinentes, é importante reconhecer que o caminho é esse e deve ser aperfeiçoado.

Ao menos 80% dos problemas dos pacientes podem ser resolvidos na atenção básica se houver equipes qualificadas e com apoio técnico.

No Rio Grande do Sul, um serviço de telessaúde ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) tem conseguido resolver 75% das dúvidas de médicos da atenção básica e evitado não só que os pacientes amarguem meses na fila de espera como também que se desloquem para outras cidades sem necessidade.

As dúvidas podem ser esclarecidas em tempo real. É como se o médico estivesse falando com um colega.

Só que do outro lado será atendido por alguém munido com as melhores evidências científicas sobre aquele problema.

Qualquer médico da atenção básica do SUS já poderia estar utilizando o serviço, mas, muitas vezes, nem sabe da existência dele.

A iniciativa deu tão certo que têm atraído acadêmicos internacionais interessados no modelo.

Antes que comecem a implantar projetos mirabolantes que só vão consumir inutilmente os parcos recursos públicos da saúde.

Sugiro aos prefeitos que tomarão posse em janeiro, inclusive o de São Paulo, João Doria (PSDB), que visitem as clínicas de família do Rio ou de Florianópolis.

A única cidade do país que possui 100% de cobertura da Atenção Primária em Saúde (APS). E conheçam o telessaúde da UFRGS.

Já existem exemplos de sobra no Brasil e no mundo de que o único meio para um cuidado efetivo em saúde é investindo e organizando a atenção primária.

Mas para isso é preciso vontade política e a nomeação de técnicos qualificados nos cargos-chaves.

Daniel Soranz, o secretário do Rio, por exemplo, é médico de família dos quadros da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Saúde é coisa séria, não é lugar de cabide de emprego ou de moeda de troca de apoio político.

Fonte: Folha de São Paulo-09.11.2016.

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