Gestão

Crise nas prefeituras paralisa hospitais no interior de São Paulo

Por Roberta Massa B. Pereira | 12.12.2016 | Sem comentários

Em várias cidades paulistas, consultas, cirurgias e internações acabaram suspensas por falta de profissionais ou o atendimento foi reduzido.

Sem verbas próprias e com atraso nos repasses das prefeituras, hospitais que atendem pelo sistema público de saúde estão parando em todo o interior paulista.

Em várias cidades, consultas, cirurgias e internações acabaram suspensas por falta de profissionais ou o atendimento foi reduzido para enxugar custos.

Há ainda médicos e funcionários em greve por falta de pagamento.

Estudantes de Medicina e funcionários do Hospital Santa Lucinda, de Sorocaba, saíram em passeata na quarta-feira passada.

Contra a suspensão de convênio da prefeitura com o hospital que garantia o atendimento de 3 mil pacientes e até 800 internações por mês.

Os estudantes da Pontifícia Universidade Católica (PUC) alegam que 80 leitos separados para o Sistema Único de Saúde (SUS) estão sendo desativados.

Há uma semana, a Justiça determinou à prefeitura um repasse de R$ 68 milhões ao centro médico para a realização de cirurgias cardíacas, sob pena de multa diária de R$ 10 mil.

A prefeitura informou que entrará com recurso e alegou que a suspensão do convênio decorreu da situação financeira do município.

Apontou ainda a defasagem entre os custos da saúde e o que recebe de repasses estaduais e federais.

Funcionários da Santa Casa de Valinhos fizeram um protesto na mesma quarta contra o atraso nos salários.

Eles não receberam o adiantamento de dezembro e a primeira parcela do 13.º salário.

O hospital diz que o repasse da prefeitura atrasou e o ato não prejudicou o atendimento.

A prefeitura negou o atraso e informou que, neste ano, já repassou R$ 18 milhões ao local, valor acima do repassado em anos anteriores.

Na segunda-feira da semana passada, funcionários do Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, de Sorocaba, fizeram um protesto contra a falta de alimentos para os 300 pacientes da unidade.

Eles estavam recebendo apenas duas refeições por dia – almoço e jantar.

A situação das refeições já foi normalizada, mas ainda faltam médicos para os pacientes e funcionários para a limpeza do hospital.

A Associação Paulista de Gestão Pública, responsável pelo hospital, alegou que a dificuldade é causada pelo atraso nos repasses da prefeitura.

O município informou que as verbas previstas para o ano já foram executadas.

Grávidas

As gestantes de Angatuba estão sendo obrigadas a viajar para Itapetininga, a 110 quilômetros, para dar à luz.

A Santa Casa local reduziu o atendimento às parturientes, depois que cinco médicos deixaram de atender por falta de pagamento.

O único hospital da cidade alega falta de condições financeiras para manter os profissionais.

Em assembleia na terça-feira, a provedora Maria Inês Barros Pereira afirmou que o centro médico pode fechar.

“Todos os médicos estão com pagamentos atrasados e, se eles pararem, a Santa Casa também para.”

O prefeito Calá Turelli (PSDB) alega que os repasses são feitos.

“Até novembro passamos R$ 4,5 milhões para o hospital e, este mês, esperamos a entrada das transferências de impostos para fazer a subvenção.”

Em Jundiaí, o Hospital São Vicente suspendeu as cirurgias não emergenciais e dispensou 25 médicos do pronto-socorro.

Outros funcionários e médicos terceirizados estão com salários atrasados.

A administração também alega falta de repasses da prefeitura.

O São Vicente atende 25 mil pessoas, faz 1,3 mil internações por mês e é o único hospital filantrópico de referência para a rede pública na cidade.

A prefeitura informou ter liberado, na terça-feira, R$ 5,5 milhões para o pagamento dos salários.

Segundo o município, além dos R$ 15 milhões destinados este ano, foi feito aditamento de outros R$ 13 milhões, mas a direção do centro médico alega que o dinheiro é insuficiente.

Os 30 mil moradores de Rio das Pedras estão sem hospital para casos urgentes.

O São Vicente de Paulo suspendeu as internações, alegando que a prefeitura não faz repasses desde agosto, acumulando débito de R$ 1,5 milhão.

Sete dos doze médicos pararam de atender por falta de pagamento.

Os casos graves são levados para Piracicaba, mas as transferências também foram afetadas pela falta de pagamento à empresa de transporte.

A prefeitura reconheceu a “grave dificuldade financeira, como a maioria dos municípios do Brasil”.

Serviço até 19 horas

As 63 Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Campinas reduziram o horário de funcionamento.

Desde o início de dezembro, o limite de atendimento diário passou a ser às 19 horas e não mais às 22 horas.

De acordo com o secretário de Saúde da cidade, Carmino Antonio de Souza, o objetivo é reduzir custos e um estudo mostrou que, após as 19 horas, há queda de 80% nos atendimentos.

Conforme Souza, a medida não afeta as unidades de pronto-atendimento, pronto-socorro e hospitais que atendem urgência e emergência 24 horas.

Desospitalização

O Ministério Público concordou em dar mais prazo para a “desospitalização” dos pacientes psiquiátricos na região de Sorocaba.

Atendendo à solicitação das prefeituras de Sorocaba, Piedade e Salto de Pirapora – como o Estado mostrou na edição de ontem.

De acordo com o promotor de Justiça Roberto de Campos Andrade, as prefeituras justificaram o atraso no cronograma.

Segundo ele, foi dado um “voto de confiança”, após reunião com representantes das prefeituras na sexta.

Mas Andrade informou que não será fixado um novo prazo – Sorocaba reivindicava extensão até abril -, pois o MP pretende encerrar o quanto antes for possível esse processo.

Fonte: Estadão-12.12.2016.

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