Inovação

Inovação sem critério eleva custo do sistema de planos de saúde

Por Roberta Massa B. Pereira | 27.11.2017 | Sem comentários

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Doenças tidas como incuráveis até outro dia são hoje descobertas antes de seu aparecimento. Medicamentos podem atingir alvos específicos.

Cirurgias abertas são substituídas por procedimentos minimamente invasivos.

Tais progressos tornam as medidas preventivas mais poderosas; os diagnósticos, mais certeiros, e os tratamentos, mais seguros e rápidos.

Mas a incorporação tecnológica em saúde tem um preço, e alto.

Não à toa está entre os fatores mais determinantes do encarecimento da medicina.

“A inserção de procedimentos não decorre da substituição de outros já existentes”, diz José Cechin, gerente-geral da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar).

Uma nova tecnologia da computação, por exemplo, costuma cair na obsolescência dois anos depois do lançamento, quando seu preço é reduzido à metade.

Na medicina, as inovações não são substitutivas, mas incrementais.

A cirurgia para desobstrução das artérias coronárias não deixou de ser feita com a popularização da angioplastia.

Tampouco o raio-x foi substituído por tomografia ou ressonância magnética.

Outra especificidade do mercado da saúde é o fato de que, na maioria dos casos, uma inovação mais efetiva é também mais cara.

O médico Stephen Stefani, oncologista do Hospital do Câncer Mãe de Deus, em Porto Alegre, e integrante da Sociedade Internacional de Farmacoeconomia e Estudos de Desfecho.

Estima que a inclusão apenas do item “novos remédios” na lista das operadoras gere um aumento anual de pelo menos 2% sobre o valor da mensalidade.

Os brasileiros gastam todo mês, em média, R$ 740,84 nos planos individuais e R$ 502,28 nos coletivos, segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

“As operadoras são as principais responsáveis por modernizar a saúde no país”, diz Reinaldo Scheibe, presidente da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde).

Os convênios respondem por 95% da receita dos hospitais brasileiros de ponta, onde está o que há de mais moderno em tecnologia médica.

Em 2016, foram R$ 137 bilhões com o pagamento de serviços de assistência à saúde de seus beneficiários.

Para que uma inovação médica seja incorporada pelos planos de saúde, ela deve entrar no Rol de Procedimentos e Eventos.

Definido pela ANS e atualizado a cada dois anos (o próximo entra em vigor em 2018).

O documento determina a cobertura mínima que cada operadora deve oferecer a seus usuários.

“Diferentemente do que acontece no sistema público, as novas tecnologias são adicionadas à saúde suplementar sem critérios claros.

Que sejam baseados em estudos de custo-efetividade e capacidade do sistema de suportar esses incrementos”.

Afirma Luiz Augusto Carneiro, superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar.

Em países como Inglaterra, Suécia, Japão e Austrália, novas tecnologias só são incorporadas após essas pesquisas.

Segundo a ANS, a escolha de novas terapias é feita após reuniões de representantes do governo, dos planos de saúde e dos consumidores.

A falta de transparência encarece ainda mais o custo da medicina.

E contribui para a crescente judicialização da saúde, diz o médico César Luiz Abicalaffe, especializado em economia da saúde.

Um país como o Brasil, que propõe um sistema universal de saúde, deve ter bem definida a relação de custo-benefício para a adoção de um remédio ou de um tratamento recém-lançado.

Um dos parâmetros mais usados internacionalmente é o que prevê o gasto de US$ 50 mil por ano de vida salvo.

“É preciso definir quanto uma determinada tecnologia modifica o desfecho”, diz o oncologista Stefani.

Um artigo na edição de setembro passado na revista científica “Nature” mostra que, de 277 medicamentos para o combate do câncer avaliados em estudos clínicos entre 2011 e 2015;

15% repercutiam em ganhos efetivos para os doentes.

Eles não apenas viviam mais, mas também tinham melhor qualidade de vida.

Presente no rol da ANS, o dabrafenibe, para melanoma metastático ou irressecável, pertence à categoria das terapias-alvo, uma das frentes mais modernas para o tratamento do câncer.

Em combinação com outro medicamento, ele inibe a ação da proteína BRAF, envolvida na multiplicação celular.

Um dos trabalhos mais importantes com o remédio indica que, para 76% dos pacientes, a evolução da doença foi contida durante 10,6 meses.

Entre os doentes que não tomaram o dabrafenibe, 54% registraram queda no ritmo de progressão do câncer por cinco ou seis meses.

Cinco meses de diferença na velocidade de disseminação das células tumorais, sem que isso represente sobrevida maior.

O custo de uma nova terapia em câncer sai, em média, US$ 10 mil por mês.

Fonte: Folha de São Paulo – 27.11.2017.

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