Gestão

Crise na saúde: “é preciso atuar de forma integrada e melhorar a gestão”.

Por Roberta Massa B. Pereira | 11.12.2017 | Sem comentários

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Porto Alegre perdeu, neste ano, o Hospital Parque Belém. O Beneficência Portuguesa, com mais de 160 anos de história, definha. A crise na saúde provoca a restrição de atendimento em outras instituições.

E deve ter como consequência o fechamento de outros hospitais, principalmente os pequenos, em cidades do Interior.

É o que projeta o diretor-executivo do Sírio-Libanês, um dos mais importantes da América Latina, Fernando Torelly.

Gaúcho de Porto Alegre, ex-superientende do Moinhos de Vento, Torelly é um destacado gestor de hospitais no país.

Ele vê uma saída para a crise: o estabelecimento de redes entre as instituições. E a melhora de suas gestões.

Com a crise econômica, 3 milhões de brasileiros perderam planos de saúde e foram para o SUS. O gasto com saúde é muito elevado.

Os planos estão reajustando até o dobro da inflação.

Lean Six Sigma

Os hospitais estão reduzindo sua margem operacional, os médicos reclamam dos honorários ruins e os pacientes esperam demais nas emergências.

O modelo atual de saúde suplementar precisa ser revisto, pois está desagradando a todos.

A maioria das pessoas, quando precisa de atendimento, vai à emergência do hospital.

Quando tu chegas à emergência, o médico não te conhece e te submete a exames que provavelmente teu médico não te pediria.

Há uma discussão, hoje, em relação ao que é valor em saúde, ou seja, só fazer o que realmente se precisa fazer.

Você não pode gastar menos a ponto de prejudicar o tratamento do paciente, mas tem de eliminar o desperdício.

O senhor pode dar um exemplo prático?

As indicações de cirurgia de coluna: quando os procedimentos são revistos por especialistas, mais de 50% são recomendados a não operar.

Em vez disso, fazer reabilitação e exercícios. “Pertinência” é uma palavra fundamental no sistema de saúde. É pertinente fazer? Ou não?

Ser pertinente pode contrariar o diagnóstico médico?

Não se trata de fazer menos cirurgias a todo custo: o que tem que ser feito deve ser feito.

Mas temos de fazer uma reflexão se é a melhor conduta em cada caso.

O grande problema na saúde é de gestão ou falta de dinheiro?

Falta de gestão e de financiamento.

Mas temos de refletir: se a saúde suplementar no Brasil está em crise, por que o capital internacional quer investir aqui?

Nossa saúde suplementar, bem gerida, com 2 mil a 3 mil leitos, pode ser rentável.

Nesse cenário, o que vai acontecer com o hospital pequeno?

O modelo de hospital que não trabalha em rede, que está isolado, é insustentável.

A globalização está atingindo os hospitais. Você tem de ser grande ou integrado a uma rede.

Esse fenômeno pode melhorar o atendimento?

Quando a eficiência é priorizada com a redução de desperdícios, você tem mais possibilidade de investir na qualidade das pessoas e em equipamentos.

O Moinhos de Vento é um exemplo: acabou de abrir mais leitos. Não tem mais como o hospital ser pequeno.

E os hospitais das cidades pequenas?

Terão de tentar trabalhar associados a outros hospitais, numa espécie de consórcio para diminuir custos e poder negociar com fornecedores.

Também terão de definir seu perfil. Não dá, por exemplo, para ter maternidade em todos os hospitais.

O senhor prevê que hospitais vão fechar?

Sem dúvida. Não está fechando o Beneficência Portuguesa? O Parque Belém também fechou…

Como fazer negociações com indústrias poderosas como a farmacêutica?

Quando se compra mil unidades, há um desconto.

Quando se compra 2 mil, mais ainda. Um hospital isolado paga o preço o cheio.

É por isso que nós, aqui do Sírio- Libanês, nos articulamos com outros hospitais para comprar em conjunto.

Acontecerá nos hospitais o mesmo que aconteceu nas farmácias. A farmácia de esquina despareceu. Só existem as grandes redes.

E os hospitais públicos?

O Sírio-Libanês tem um projeto para implantar programas de excelência operacional em seis emergências do SUS no Brasil.

E estamos fazendo um trabalho de apoio aos hospitais federais do Rio.

Os hospitais públicos precisam seguir a mesma lógica dos privados: trabalhar de forma integrada, criando redes para comprar materiais.

Por que grandes hospitais enfrentam dificuldades em dar atendimento mais ágil em emergências?

É oferta versus demanda. Em Porto Alegre, a procura por emergências dobra a cada ano.

E isso acontece porque o hospital investe em qualidade, e os pacientes sabem que serão bem entendidos.

Fonte: ANAHP – 11.12.2017.

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