Saúde

Vírus da zika pode ser usado para eliminar câncer cerebral

Por Roberta Massa B. Pereira | 27.04.2018 | Sem comentários

Conhecido por destruir células-tronco do cérebro em formação, provocando problemas neurológicos como a microcefalia, vírus também tem a capacidade de destruir de forma seletiva as células de tumores do sistema nervoso central.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).

Mostra que o vírus da zika é capaz de infectar e matar as células de tumores cerebrais com grande eficácia, sem causar danos às células saudáveis.

De acordo com os autores da pesquisa os resultados sugerem que no futuro vários tipos de tumores agressivos do sistema nervoso central poderiam ser tratados.

Com algum tipo de abordagem envolvendo o uso do vírus da zika, conhecido por sua preferência por atacar células do cérebro em formação.

Segundo eles, os mesmos mecanismos que dão ao vírus a capacidade de causar problemas neurológicos graves.

Vomo a microcefalia também permitem que ele ataque seletivamente as células de câncer no cérebro.

Realizada por cientistas do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, sob coordenação da geneticista Mayana Zatz.

A pesquisa teve seus resultados publicados nesta quinta-feira, 26, na revista científica Cancer Research, da Associação Americana para a Pesquisa do Câncer.

Segundo Keith Okamoto, autor principal da pesquisa, estudos anteriores já haviam mostrado que o vírus da zika tem uma grande afinidade com as células do sistema nervoso central.

Em especial as células-tronco neurais, que dão origem aos neurônios.

Assim, quando um feto é infectado, o vírus ataca seu sistema nervoso em formação e reduz drasticamente a quantidade de células-tronco neurais, gerando problemas como a microcefalia.

Por outro lado, segundo Okamoto, estudos feitos pelo grupo da USP sobre tumores do sistema nervoso central.

Mostravam que as células que compõem esses tumores têm características semelhantes às das células-tronco neurais e estão ligadas ao processo de disseminação do câncer – a metástase.

“Essas células tumorais são especialmente resistentes aos tratamentos convencionais como quimioterapia e radioterapia.

Por isso decidimos investigar se o vírus da zika, que infecta células-tronco normais.

Poderia também infectar e matar as células tumorais que têm características de células-tronco”, disse Okamoto ao Estado.

Para realizar a pesquisa, os cientistas infectaram com zika células humanas derivadas de dois tipos de tumores cerebrais.

Que afetam especialmente crianças de até cinco anos de idade:  meduloblastoma e tumor teratóide rabdóico atípico.

Segundo Okamoto, os tumores do sistema nervoso central são os tumores sólidos mais frequentes em crianças e adolescentes.

O procedimento também foi feito com células de câncer de mama, de próstata e de intestino.

As células-tronco neurais humanas utilizadas no experimento foram obtidas com a técnica de células-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em inglês).

Que consiste em reprogramar células adultas do corpo humano para que elas voltem a se comportar como células-tronco embrionárias.

Que podem se diferenciar em qualquer tipo de tecido do corpo.

Em um dos experimentos, os pesquisadores utilizaram essas células tumorais humanas para induzir o crescimento de tumores cerebrais “humanos” em camundongos.

Depois de desenvolver o câncer em estágio avançado, os animais receberam uma injeção com o vírus da zika.

Os tumores regrediram em 20 dos 29 animais tratados com o vírus – em sete deles, a remissão foi completa e o tumor desapareceu.

O vírus também bloqueou e reverteu metástases.

“O estudo mostrou que o vírus da zika de fato possui afinidade com as células do sistema nervoso central, infectando e matando as células tumorais de forma seletiva.

O mesmo não ocorreu com os tumores de mama, próstata e intestino.

As células-tronco tumorais se mostraram ainda mais suscetíveis a serem destruídas pelo vírus do que as células-tronco sadias.

Observamos também que o vírus não foi capaz de infectar os neurônios maduros”, explicou Okamoto.

Segundo o cientista, o fato do vírus da zika não afetar os neurônios maduros é crucial do ponto de vista da segurança.

Já que a destruição de neurônios saudáveis seria uma barreira para o uso do vírus em uma futura terapia contra o câncer cerebral.

“Mostramos que o vírus tem propriedade oncolítica, isto é, ele é capaz de atacar preferencialmente as células tumorais, preservando as células normais do mesmo tecido.

Essa linha de estudos é bastante nova e nosso estudo é o primeiro com o vírus da zika a mostrar resultados em células humanas”, disse o pesquisador.

Vírus contra câncer.

Okamoto conta que as propriedades oncolíticas já haviam sido observadas em outros vírus e a estratégia do uso de vírus como “arma” contra o câncer já é uma realidade.

Em 2015, a FDA – a agência americana responsável pela regulação de fármacos, terapias e alimentos.

Aprovou um tratamento que utiliza uma forma modificada do vírus da herpes para tratar melanoma.

No ano passado, quando os cientistas brasileiros já haviam enviado o novo artigo para publicação.

Um grupo de cientistas americanos publicou um estudo que também mostrou como o vírus da zika destrói células de glioblastoma .

Outro tipo de câncer cerebral, mas o estudo foi feito sem o uso de células humanas.

“O estudo sobre o glioblastoma é importante, porque é um tipo de câncer agressivo que carece de tratamento.

Mas o estudo não foi feito com células de tumores humanos – e sim com células de tumores de camundongos, que respondem de forma diferente”, disse Okamoto.

Como foram utilizadas células de tumores humanos nos camundongos.

O estudo brasileiro conseguiu demonstrar não apenas que o vírus da zika consegue reduzir os tumores, mas também inibir a metástase.

No caso do glioblastoma, isso não foi possível pois a metástase raramente ocorre.

Já que frequentemente o paciente morre antes que o tumor tenha tempo para se alastrar.

“Outra novidade importante da nossa pesquisa é que pela primeira vez foi feito um estudo de escalonamento da dose.

Isto é, nós adicionamos quantidades crescentes do vírus às células tumorais para descobrir qual é a quantidade mínima capaz de promover a infecção.

Verificamos que uma dose do zika 50 vezes menor que a utilizada no estudo americano já é suficiente para eliminar os tumores”, explicou Okamoto.

O estudo brasileiro também mostrou que depois de atacar as células-tronco tumorais, o vírus da zika não consegue se reproduzir com eficiência.

O que evitaria que os pacientes tratados contra o câncer ficassem doentes com a infecção viral.

“Normalmente, quando um vírus infecta uma célula, ele sequestra sua maquinaria para se replicar.

E depois libera uma quantidade imensa de partículas virais que irão infectar outras células.

Mas descobrimos que, por algum motivo, o vírus não consegue se replicar de forma eficiente na célula de câncer.

Porque as partículas virais produzidas são defeituosas, com pouca capacidade para destruir células normais.”

Além dos grupos liderados por Okamoto e por Mayana Zatz no Centro de Estudos do Genoma Humano da USP

O estudo também teve a participação de pesquisadores do Instituto Butantan, que já trabalhavam com o vírus da zika.

A primeira autora do estudo foi Carolini Kaid, doutoranda orientada por Okamoto, que se responsabilizou pelo trabalho com os camundongos.

Realizando as cirurgias para implantação dos tumores, injetando o vírus da zika no local, e acompanhando a evolução.

Segundo Okamoto, para a realização de ensaios clínicos em humanos ainda será necessário obter o vírus purificado.

Em quantidades maiores, e produzido de acordo com as boas práticas de cultivo exigidas para testes em seres humanos.

O Instituto Butantan já forneceu os vírus para essa etapa.

Só a partir daí será possível criar um protocolo para aplicação em pacientes.

“Precisamos ter responsabilidade com os pacientes e por isso é preciso deixar claro que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Até que nossa descoberta seja transformada em uma terapia para aplicação em humanos.

Nossos estudo é bastante robusto e os resultados são muito promissores, mas o desenvolvimento de qualquer novo tratamento passa obrigatoriamente pela fase de estudos clínicos muito rigorosos para determinar sua segurança e a eficácia.”

Fonte: Estadão-27.04.2018.

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