O SUS está tentando resolver um problema antigo com uma lógica nova
Por Roberta Massa | 22.09.2026 | Sem comentáriosRADAR REGITS | O que mudou na saúde?
O SUS está tentando resolver um problema antigo com uma lógica nova:
Organizar o cuidado como uma jornada, não como uma sequência de procedimentos.
O QUE MUDOU?
Na última semana, o Ministério da Saúde anunciou uma nova organização do cuidado para pessoas com doença renal crônica, dentro do programa Agora Tem Especialistas.
As novas Ofertas de Cuidados Integrados (OCIs) passam a reunir consultas, exames, acompanhamento multiprofissional e procedimentos de acordo com o estágio da doença e as necessidades do paciente.
O modelo também atualiza o cuidado da anemia na doença renal crônica, incorporando novas opções terapêuticas ao SUS.
FATO
A mudança não é apenas financeira.
Para a preparação para hemodiálise, por exemplo, o valor da oferta passa de R$ 940,22 para R$ 3.000,63, aumento de aproximadamente 219% no valor nominal, enquanto o Ministério informa que as novas ofertas representam entre 263% e 360% dos valores anteriormente pagos, conforme o cuidado.
Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, foram habilitados 62 serviços relacionados ao cuidado renal, incluindo hemodiálise, diálise peritoneal e acompanhamento pré-dialítico.
Outro ponto estratégico: o acompanhamento especializado pode favorecer a identificação e o encaminhamento de pacientes para avaliação de transplante antes do início da diálise, quando houver indicação.
IMPACTO
O movimento sinaliza uma mudança importante na lógica da assistência especializada:
Menos fragmentação, mais percurso assistencial.
Durante muito tempo, a eficiência da saúde foi analisada a partir do volume de consultas, exames e procedimentos realizados.
Mas o paciente não experimenta a assistência em procedimentos isolados. Ele experimenta uma jornada.
Quando consulta, exame, diagnóstico, tratamento, acompanhamento e encaminhamento estão desconectados, aumentam:
- o tempo de espera;
- a repetição de etapas;
- a perda de informação;
- a peregrinação do paciente;
- os riscos de descontinuidade;
- e a pressão sobre os serviços de maior complexidade.
As OCIs procuram enfrentar justamente essa fragmentação, organizando os cuidados necessários dentro de um percurso mais integrado.
OPORTUNIDADE
A experiência da doença renal pode ser observada como um laboratório de transformação da assistência especializada.
A pergunta para gestores públicos, hospitais e redes privadas não deveria ser apenas:
“Quanto estamos produzindo?” Mas também:
“Quanto da jornada do paciente estamos conseguindo integrar?”
Isso abre espaço para uma nova agenda de gestão:
Demanda => acesso => diagnóstico => cuidado => continuidade => desfecho.
O indicador deixa de ser exclusivamente o procedimento realizado e passa a incorporar a capacidade da rede de resolver o problema de saúde ao longo da jornada.
LEITURA ESTRATÉGICA REGITS
O ponto mais relevante dessa mudança talvez esteja menos na doença renal e mais no modelo de gestão que ela representa.
A saúde especializada começa a caminhar de uma lógica de produção fragmentada para uma lógica de coordenação do cuidado.
Isso exige uma mudança também na governança.
Para que um modelo integrado funcione, cinco elementos precisam conversar:
1. FINANCIAMENTO
O recurso precisa acompanhar o percurso assistencial.
2. PROTOCOLO
A jornada precisa ter critérios claros de acesso e encaminhamento.
3. DADOS
A rede precisa enxergar onde o paciente está e qual é o próximo passo.
4. RESPONSABILIDADE
É necessário definir quem coordena cada etapa do cuidado.
5. DESFECHO
O sucesso precisa ser medido pelo resultado para o paciente, e não apenas pela quantidade de procedimentos realizados.
O RADAR REGITS
A grande transformação pode estar acontecendo justamente aqui:
o futuro da assistência especializada não será definido apenas pela capacidade de fazer mais procedimentos, mas pela capacidade de conectar melhor cada etapa do cuidado.
A doença renal é um exemplo concreto.
Mas o princípio pode ser aplicado a cardiologia, oncologia, neurologia, saúde da mulher, reabilitação e outras linhas de cuidado.
Integrar não significa apenas colocar serviços lado a lado.
Significa fazer com que informação, financiamento, profissionais, tecnologia e decisões clínicas trabalhem em torno de uma mesma jornada.
E essa é uma agenda de gestão que merece ser acompanhada de perto.
Pergunta para a rede REGITS:
Se você pudesse redesenhar hoje uma linha de cuidado do seu sistema de saúde, qual seria a primeira a integrar?
E qual indicador você usaria para provar que a integração realmente melhorou o cuidado?
Fontes
Ministério da Saúde | Notícias de setembro de 2026
CONASS | Estabelecimentos Hospitalares em Terapia Renal Substitutiva
Senado Federal | Lei nº 15.233/2025, Programa Agora Tem Especialistas