Gestão

Saúde para dar ou para vender

Por Roberta Massa B. Pereira | 06.01.2016 | Sem comentários

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No Brasil, depender do SUS nos cuidados em saúde é para muita gente sinônimo de pobreza, penúria, pindaíba.

Em entrevista recente à Folha, Janete, mulher do músico Luiz Galvão, que trava uma briga judicial com a cantora Daniela Mercury, resumiu as dificuldades financeiras: “Meu marido se trata no SUS.”

Quase 30 anos depois de criado e sendo referência mundial em modelo de inclusão social, o SUS não conseguiu atrair a classe média, como ocorreu nos países europeus. Pesquisas mostram que o grande desejo por aqui é ter plano de saúde, sonho que só fica atrás do da casa própria.

Mas você, leitor, já fez as contas de quanto economizaria sem ter que pagar um plano? Ou quanto terá de desembolsar por ele ao se aposentar? Ou ainda já se perguntou por que bancá-lo se a Constituição lhe garante direito à saúde?

Sim, ninguém quer estar na pele dos pacientes do SUS que sofrem em macas nos corredores de hospitais superlotados ou morrendo sem assistência.

Mas não é só o SUS que é mal avaliado. Pesquisa recente do Instituto Datafolha a pedido do CFM (Conselho Federal de Medicina) revelou que a saúde brasileira em geral (pública e privada) tem índice de reprovação de 96% entre os usuários de planos e de 92% entre os que utilizam o SUS.

Afinal, qual o modelo de saúde que o país deseja? Saúde como bem público e fator de redução de iniquidades ou saúde como bem de consumo, que se compra no mercado?

Há muitos fatores exaustivamente debatidos para explicar as mazelas do SUS, entre eles subfinanciamento crônico e má gestão dos serviços.

Mas existe uma outra razão importante e pouco falada.

A classe média olha para o SUS como um sistema para os pobres, o que a impede de defender ideologicamente o sistema. Ter um plano de saúde é sinal de ascensão social.

Para o sanitarista Heitor Werneck, a razão pode estar nas raízes hierárquicas da sociedade brasileira, avessa às políticas igualitárias.

Werneck propõe um curioso antídoto contra o estigma: mostrar que o brasileiro faz papel de idiota e perde dinheiro ao comprar um serviço já pago por meio dos impostos.

Mudar esse cenário por meio de políticas é improvável, já que 65% do mercado de planos de saúde (30 milhões de pessoas) é de coletivos empresariais–benefício indireto ofertado aos trabalhadores.

No Reino Unido, um seguro privilegiado aos trabalhadores deixou de fazer sentido em 1948, com a fundação do NHS, o sistema público de saúde que inspirou a criação do SUS.

Fonte: Folha de São Paulo – 06.01.2016

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