Gestão

Quando o SUS sairá do rascunho?

Por Roberta Massa B. Pereira | 03.03.2016 | Sem comentários

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As dificuldades financeiras enfrentadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) mesmo rotineiramente tomando os noticiários, já não espantam a população. As tragédias anteriormente anunciadas atingiram as maiores instituições pública e filantrópicas de saúde do Brasil, até mesmo os hospitais universitários como a Unifesp e a UFRJ, além do INCA e as maiores Santas Casas do Brasil, como São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte.

Posso afirmar que a falta de dinheiro e a angústia de constatar a decadência do atendimento dos pacientes já foi experimentada por todos os gestores hospitalares brasileiros que trabalham no SUS.

Faltam profissionais de saúde, equipamentos, medicamentos, reformas, insumos em geral, já nos falta força para gritar. Já reivindicamos, anunciamos, mas a sensibilização do governo federal não dura mais que algumas horas.

Sabe-se que as causas são complexas e que se arrastam há muito tempo. Os atrasos nos pagamentos, o curto orçamento, a defasagem da tabela, a missão impossível de cumprir os tetos estipulados e outras grandes distorções do sistema já são suportadas pelas Santas Casas e hospitais filantrópicos ao longo da história, mas a situação se apresenta com dificuldades generalizadas para todo o setor.

Os filantrópicos são responsáveis por 56% de todo o atendimento SUS no país. 63% de todas as internações de alta complexidade no SUS, 59% dos transplantes, 68% dos procedimentos de quimioterapia, 66% das internações em cardiologia e 69% da cirurgias oncológicas.

Não podemos esquecer também que estes hospitais também são importantes no setor produtivo e no desenvolvimento econômico. Geram mais de 480 mil empregos diretos e atualmente acumulam dívidas de 21 bi.

Do total da fatura pelos serviços prestados, considerando procedimentos de todos os graus de complexidade, o Governo paga apenas 60% dos custos e essa prática alcançou a imoralidade. Não há mais como suportar o déficit contínuo e crescente. A maioria das instituições já foram atingidas e se arrastam, refletindo sua situação nos usuários.

O orçamento atual não seria suficiente para cobrir os gastos que tivemos na saúde em 2014.

Estamos cansados de pregar no deserto. O SUS na prática é o rascunho de um sistema e já passamos do estágio de bancarrota, basta olhar as manchetes do Estado do Rio de Janeiro. Não que os paulistas encontrem situação melhor.

Temos um castelo de cartas e pouca ilusão de que alguma boa notícia chegue com a urgência necessária. O pobre e dilapidado orçamento não é suficiente. Ponto, a conversa se encerra sempre assim. Não há um indicador de que na prática algo será feito para socorrer a população.

Do outro lado, restam administradores enlouquecidos, acusados de má gestão e desanimados e um olhar da população de expectativa, de incredibilidade e indignação.

Potencialize a situação com o aumento de usuários do SUS já que a atual crise provocou o aumento do número de brasileiros sem plano de saúde privado, cerca de 160 mil, por enquanto.

A frustração diante deste cenário é fato, os problemas políticos e econômicos dispersam a atenção, já que há muitos desafios impostos nesse momento aos brasileiros, mas o socorro à saúde não pode esperar. Estamos cansados de ver o conceito de saúde universal, integral e prioritária só para fins de publicidade.

Edson Rogatti é presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo – Fehosp e da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos – CMB

Fonte: Folha de São Paulo-03.032016

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