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A saúde precária de nossos referenciais

Por Roberta Massa B. Pereira | 24.03.2016 | Sem comentários

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A comoção não tão recente com a máfia das próteses em Minas Gerais, ou as mais atuais e até mesmo fora da área da saúde, como as da FIFA, Samarco e Lava Jato, são sinais de que podemos estar em uma transição esperançosa rumo a uma evolução no mindset brasileiro. Esta exposição dos problemas traz à tona empresas, entidades e indivíduos que execram a ética, e mostram que o pagamento de propina é uma prática comum na obtenção de licenças, contratos públicos, acordos financeiros, acesso às universidades e, infelizmente, também no exercício médico.

É aquela velha retórica: da porta pra fora elevam positivamente a visão, missão e os valores (afinal de contas, a medicina é uma ciência nobre, com registros de grandes contribuições para sociedade até a atualidade). Entre quatro paredes, as práticas são estas que nos envergonham – e corroboram, de certo modo, ao fato que, mesmo depois de 1988, ano em que foi constituído o direito à saúde, ainda nos vemos longe da uniformidade de acesso à saúde no Brasil.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2013, lançada pelo IBGE em 2015, as regiões norte e nordeste ainda estão muito aquém se comparadas às outras regiões do país: por lá, apenas 15% da população, em média, tem acesso à saúde. Não é preciso vasculhar muito os jornais para encontrar manchetes sobre desvios de verbas de postos de saúde e SUS para uso ilícito, principalmente nas regiões norte e nordeste.

O fato é que a corrupção é um fenômeno invasivo e sistêmico que atinge a sociedade como um todo. Prejudica a construção de um projeto de país que o Brasil merece, pois à medida que uma empresa paga propina, frauda o fisco ou comete práticas ambientais inaceitáveis, ela reforça um modelo irresponsável e socialmente injusto, que favorece a poucos e aumenta a desigualdade. Trata-se de um ato que parece ser inofensivo no curtoprazismo, já que tem um passe livre porque é a “regra do jogo”, mas, no médio e longo prazo, perdemos muito. Nossa realidade no fornecimento de necessidades básicas como saúde, educação, saneamento básico, habitação e transportes nos mostra que o timing para a mudança é agora.

O alento vem de novos líderes que tenho tido o prazer de conhecer e de poder somar, gestores jovens, providos de vontade de fazer diferente, de ajudar o seu país a melhorar, com uma visão clara de que a crise de valores em que vivemos hoje é necessária e benéfica, serve para nos ensinar que esse modus operandi de fazer negócios não é mais aceitável e tido como assertivo, como no passado. A visibilidade que envolve todos os atores que compõem uma cadeia de valor de determinado segmento exige um tom de transparência, já que todos estão esgotados do estado vigente do mundo.

Sob um prisma puramente de negócios que até hoje viveu o ultra capitalismo, quem mais perde é a própria organização, pois não há mais para onde expandir nesse formato. Com a entrada de investidores estrangeiros no setor da saúde, por exemplo, a governança corporativa e o police internacional de sustentabilidade serão cada vez mais apreciados.

O segmento da saúde do Brasil, se comparado a um organismo vivo, está prestes a uma falência múltipla de órgãos, mas a saúde precária de nossos referenciais é o que nos levou a esse abismo. E, no fundo dele, vejo nascer um novo valor.

*Roberta Valença é CEO da Arator, consultoria especializada em projetos de sustentabilidade com inovação.

Fonte: NB Press Comunicação – 24.03.2016

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