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Cirurgias robótica e tradicional têm resultados iguais, diz estudo

Por Roberta Massa B. Pereira | 29.07.2016 | Sem comentários

Um estudo publicado na prestigiosa revista médica “Lancet” tenta colocar um ponto final em um dos grandes debates atuais da urologia: afinal, a cirurgia robótica, que surgiu nos anos 2000, é mesmo superior à cirurgia aberta convencional para tratar câncer de próstata?

Segundo os autores, do Royal Brisbane & Women’s Hospital, na Austrália, a resposta é não. Três meses depois das cirurgias, os pacientes que se submeteram às duas técnicas tinham resultados semelhantes, principalmente em relação a continência urinária e função erétil.

O estudo tem o grande mérito de ser o primeiro randomizado a comparar os dois tipos de cirurgia –ou seja, a dividir aleatoriamente pacientes em cada um dos grupos.

Nos EUA, onde a cirurgia robótica mais se difundiu, isso se tornou impraticável porque 1) a cirurgia aberta para retirada da próstata praticamente sumiu do país; 2) os médicos consideram a cirurgia robótica tão superior à técnica convencional que acreditam ser antiético submeter pacientes a outro tipo de operação e os próprios pacientes se recusariam.

O estudo australiano começou em 2010 e os pacientes foram operados até 2014. No final, 121 pacientes que fizeram a cirurgia aberta e 131 que fizeram a robótica completaram o acompanhamento de três meses. Cada grupo foi operado por um mesmo cirurgião experiente.

Os resultados funcionais depois de três meses foram similares, afirmam os autores. Mas houve diferenças principalmente no pós-operatório imediato. Pacientes da cirurgia aberta reportaram mais dor nas primeiras 24 horas e na primeira semana e tiveram três vezes mais perda de sangue e um maior tempo de internação. A duração do procedimento também foi maior.

Não houve, porém, diferenças no número de pacientes que sofreram complicações após a operação.

Para especialistas ouvidos, houve um consenso: o estudo foi muito bem conduzido, mas o tempo de acompanhamento dos pacientes foi curto e o número de voluntários poderia ser maior –segundo comentário publicado junto com a pesquisa, foi uma decisão do Comitê de Monitoramento Independente de Dados parar de recrutar mais pacientes após quatro anos, na ausência de diferenças entre os principais resultados.

“Os dados são interessantes, mas não é ‘o’ trabalho que vai acabar com essa discussão longa. Em congressos de urologia, ninguém aguenta mais esse debate. Chegamos num ponto que quem quer faz, vai da preferência do cirurgião e do paciente”, diz Anuar Mitre, urologista do Hospital Sírio-Libanês.

“Sou cirurgião que faz a convencional, a laparoscópica pura e a laparoscópica robótica. A cirurgia é exatamente a mesma, mas as duas últimas são menos invasivas. Pergunta se alguém quer fazer a aberta. Claro que você cria uma concorrência entre médicos, mas a conclusão do trabalho é que importa mais o cirurgião do que a técnica”, diz Mitre. “Você não precisa de uma Mercedes no dia a dia, mas tem gente que opta por esses carros e pode pagar por eles”, compara. “A cirurgia aberta não é pior, mas eu, como médico, prefiro ver o paciente com menos sangramento, levantando-se mais cedo e saindo antes do hospital.”

Gustavo Guimarães, chefe do núcleo de urologia do A.C.Camargo Cancer Center, vai na mesma linha. “O estudo prova é que um bom cirurgião vai ter bom resultados. A experiência é mais importante, e é isso que deve levar à escolha da técnica. Mas se os resultados são iguais, a que traz menos morbidade é preferencial.”

O comentário que acompanha o estudo afirma que “estudos que mostram equivalência às vezes são interpretados como apoio a um retorno às práticas já existentes. Mas equivalência e não inferioridade deveriam ser vistas como positivas porque mostram que a inovação preservou o propósito da intervenção cirúrgica. São esses avanços em tecnologia aplicada, reduzindo o trauma do acesso e a invasão das cirurgias, que permitem melhorar a qualidade e a segurança das intervenções. Nosso desafio é demonstrar o caminho seguro e custo-efetivo junto com um impacto saudável e econômico”.

Custo

A diferença de custo é um dado crucial, especialmente na rede pública. Hoje, há 23 robôs para cirurgia no Brasil, sendo três no SUS –o Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), o Inca (Instituto Nacional de Câncer), no Rio, e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre têm um cada. A técnica chegou em 2008 no país.

Estima-se que, nos hospitais de ponta, só a cirurgia aberta custe de R$ 17 mil a R$ 20 mil e a robótica, de R$ 27 mil a R$ 30 mil (sem contar custos como internação). E o próprio robô tem um preço alto: cerca de US$ 3 milhões.

É por isso que o Icesp está fazendo um estudo para não só comparar as duas técnicas mas também avaliar custo-efetividade da robótica.

“Trouxemos o robô para responder aos ministérios da Saúde e Ciência quanto custa a tecnologia e se vale a pena lançar mão desses recursos”, diz William Nahas, coordenador da urologia cirúrgica do Icesp e professor da Faculdade de Medicina da USP.

Além da urologia, o estudo vai avaliar a diferença entre robótica X tradicional na ginecologia, na cirurgia torácica e na cirurgia gastrointestinal. Até agora, já foram operados cerca de 120 pacientes em cada um dos grupos (robótica e aberta), mas o objetivo, segundo Nahas, é chegar a 190 em cada um. Os resultados devem sair daqui a 12 ou 18 meses.

O Hospital Alemão Oswaldo Cruz também fez estudo similar ao publicado na revista “Lancet”. Os pesquisadores estão esperando resultados de longo prazo para a publicação, segundo Carlo Passerotti, coordenador do Centro de Cirurgia Robótica do hospital.

Fonte: Folha de São Paulo-29.07.2016.

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