Gestão

Setor logístico na saúde cresce até 20% ao ano, mas crise afeta cliente público

Por Roberta Massa B. Pereira | 29.08.2016 | Sem comentários

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São menos de dez empresas e atuam num mercado em que sazonalidade é uma palavra que não existe.

Com crise ou sem crise, a procura por serviços de saúde não costuma oscilar.

E as empresas deste nicho —o serviço terceirizado de logística de medicamentos para hospitais, laboratórios e planos de saúde— crescem até 20% por ano, protegidas por uma espécie de “estufa de mercado”.

O setor é fortemente controlado pelo governo, o que exige experiência para se adaptar às regras e exigências.

As cargas são tão valiosas que exigem um sistema de segurança complexo, com detalhes desconhecidos até por seus donos.

Dentro de um único caminhão pode haver até R$ 10 milhões em remédios e, num centro de distribuição, centenas de milhões de reais —o que faz dos medicamentos um dos principais alvos das quadrilhas de roubo de carga, ao lado dos eletrônicos.

Além de muito valiosa, a carga é frágil. Precisa ser transportada em veículos climatizados e armazenada sob temperatura e umidade controladas.

Para guardar remédios, uma empresa que se preze deve ter monitoramento 24 horas de seus depósitos e funcionários prontos a serem acordados no meio da noite para resolver emergências.

Para controlar os medicamentos dentro de um hospital, é preciso ainda mais que isso: uma equipe de tecnologia que desenvolva equipamentos e softwares seguros e eficientes.

“Nosso software está sendo desenvolvido há dez anos, e temos demandas de desenvolvimento para até 2019”, diz Mayuli Fonseca, sócia e diretora de novos negócios da UniHealth, especializada em logística hospitalar.

A especialização cria barreiras de entrada altas nesse segmento e, por consequência, oferece uma atividade mais lucrativa que a de simplesmente transportar produtos.

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Preconceito particular

“Nosso maior concorrente ainda são os próprios hospitais”, diz Patrícia Lazzarini, gerente farmacêutica da RV Ímola, de logística para o setor de saúde. “A insegurança que eles têm de transferir esse controle para alguém.”

Fonseca concorda.

“No Brasil ainda há muito preconceito com a terceirização”, diz ela.

“Nos EUA, as empresas preferem concentrar esforços naquilo que é seu ‘core’, e logística é setor de apoio. A gestão lá fora é mais profissional. Nossa área de saúde ainda é muito tradicional, muito familiar.”

O setor público responde pela maioria dos mais de 100 clientes da UniHealth. É também onde os ganhos com a logística são maiores: por causa das regras de licitação, que pode levar até seis meses, eles precisam manter estoques maiores e estão muito mais sujeitos a perdas.

Um levantamento feito pelo TCU em 2014 em 116 hospitais federais, estaduais e municipais em todo o Brasil mostrou que ocorriam falhas na licitação em quase 60% delas, com impacto na medicação dos pacientes.

O estudo também retratou ineficiências: encontrou erros no gerenciamento de estoques em 10% dos casos, falta de informação sobre o estoque em 9%, remédios expirados em 5%. Em 78% delas, procedimentos médicos deixaram de ser feitos por falta de medicamentos ou outro insumo -21% com grande frequência.

Empresas do setor calculam em até 30% as perdas de remédios e outros materiais como tubos de ensaio e fórmulas de nutrição.

Negligência

Em 45 das 116 unidades visitadas (39%) pelo TCU, os gestores afirmaram haver desperdícios de medicamentos e insumos ocasionados pela realização de práticas inadequadas ou negligentes por parte dos profissionais.

Outras causas são manuseio errado e até desvios -no caso de remédios contra o câncer, por exemplo, uma única ampola pode custar R$ 1.000.

Um balanço feito na rede de saúde da cidade de Juiz de Fora (MG), que terceirizou a logística para a UniHealth, apontou para queda dos gastos mensais com suprimentos de R$ 15 milhões para R$ 8,8 milhões de abril de 2014 a abril de 2015.

Pelos cálculos da empresa, havia um desperdício de 28% dos remédios e materiais antes da digitalização.

Para um hospital público, cujo sistema de compra é mais complexo, há um ganho adicional, afirma Celso Vicente de Almeida, chefe da farmácia do Vila Penteado: “O processo licitatório fica registrado no sistema e pode ser consultado a qualquer tempo, o que facilita sua verificação”.

Antes de 2007, era preciso anotar à mão, em fichas, a entrada e saída dos cerca de 2.000 itens diferentes —entre remédios, suprimentos clínicos e dietas especiais— o que levava a erros nos cálculos de custo e consumo e dificultava o controle dos prazos de validade.

Agora, o sistema registra e acompanha as 647.650 unidades de comprimidos, cápsulas, ampolas e frascos usadas por semestre informa sobre o vencimento de prazos a tempo para que o medicamento seja enviado a outra unidade da rede pública.

Também conecta o nome do paciente ao código de barras do remédio, facilitando controle, conferência e cálculo de consumo por leito.

O hospital diz não ter dados sobre a perda de remédios e insumos antes de 2007, mas, segundo Almeida, chefe da farmácia, elas praticamente zeraram desde a implantação do sistema.

Segundo a RV Ímola, cujo contrato atual é de 2013, a redução nas perdas foi de 70%.

Tudo controlado

A empresa estoca as caixas de remédios em câmaras de temperatura e umidade controladas, em Guarulhos, as entrega no hospital, recorta as cartelas de comprimidos ou cápsulas para separar cada unidade, coloca códigos de barra em cada uma delas com informações do princípio ativo, dosagem, lote e prazo de validade.

Também fornece o sistema que acompanha essas unidades, informa o consumo e o gasto por item e por paciente, alerta sobre prazos de vencimento e acompanha o tamanho do estoque.

Além de medicamentos, equipamentos médicos (luvas, máscaras, macas, focos de luz) e insumos (seringas, agulhas, tubos de ensaio) são controlados.

Dependendo da legislação estadual ou municipal, a separação das cartelas de medicamento em unidades precisa ser feita obrigatoriamente em ambiente hospitalar.

Por isso, a RV Ímola adotou o modelo de manter uma equipe de auxiliares de enfermagem dentro do hospital cliente, 24 horas por dia.

A empresa está em fase de testar internamente um sistema de beira-leito, destinado ao nicho de hospitais de ponta.

Além do contrato com o hospital de Vila Penteado, que vai até 2018, a empresa atende também o centro médico do convênio Unihosp e toda a área de saúde do Mato Grosso (mais de 140 municípios).

Mais Valor

Fundada em 2002 como consultoria, a empresa passou a atuar em logística em 2003. Também opera com logística reversa e armazenagem, mas os departamentos mais lucrativos são os de soluções: softwares de controle, gestão de estoque, consultoria e suporte a compras.

No horizonte está a especialização em produtos de maior valor, como o transporte de vacinas —produtos que exigem rigoroso controle de temperatura— e medicamentos de alta complexidade.

A UniHealth também começou como transportadora, a Unidocks, que foi vendida para a DHL.

Como não podia competir com a compradora, passou a atuar em 2004 com consultoria e, a partir de 2005, a oferecer serviço e produtos de logística hospitalar.

A empresa desenvolve inclusive parte do hardware, inclusive, como robôs e dispensadores

Embora o setor de saúde costume oscilar menos e manter a demanda mesmo em época de recessão, os rombos nas contas de Estados e municípios afetaram a empresa. Desde 2015, a RV Ímola interrompeu o serviço em quatro hospitais públicos de Minas Gerais, por falta de pagamento.

A UniHealth também sentiu um impacto maior em seus clientes do setor público, mas diz que os hospitais privados também paralisaram novos investimentos.

A solução foi explorar o mercado exterior. Neste ano, abriram operações no Equador, na Colômbia e no México, com parceiros do setor de transportes.

O faturamento no exterior, porém, representa ainda 10% do total.

Futuro promissor

Embora sinta os efeitos da crise no Brasil, Fonseca projeta crescimento de 20% para este ano de 2016. “Achamos que o país vai melhorar no segundo semestre.”

Além de novo, o nicho de logística interna de medicamentos é bastante heterogêneo. A maior parte dos concorrentes da UniHealth faz também transporte.

Para centralizar a defesa de interesses do segmento, executivos estão estudando a possibilidade de criar uma associação específica.

“O país ainda tem muito a amadurecer nesta área e, conforme os empresários comecem a perder o medo da terceirização, o mercado vai crescer”, diz Fonseca. Ela antevê o mesmo fenômeno que ocorreu com as lavanderias, serviço hoje quase 100% terceirizado.

“O ganho de escala é grande, não há como não acontecer.”

RAIO-X

UNIHEALTH / 2015

Faturamento: R$ 100 milhões
Lucro: não divulga
Número de clientes: 100
Número de funcionários: 400

RV ÍMOLA/ 2015

Faturamento: R$ 2,3 milhões com logística hospitalar; R$ 150 milhões (*)
Lucro: não divulga
Número de clientes: 5 em logística hospitalar hospitalar, 80 no total (*)
Número de funcionários: 1.000 (*)

(*) inclui outros serviços da empresa como consultoria, transporte e logística para a cadeia de suprimentos da indústria farmacêutica.

Fonte: Folha de São Paulo-29.08.2016

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