Gestão

Hospital Albert Einstein: paraíso fiscal pode ter sido rota do esquema

Por Roberta Massa B. Pereira | 21.09.2016 | Sem comentários

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A investigação policial sobre um suposto esquema entre médicos do Hospital Albert Einstein e fornecedores de próteses cardíacas avança agora sobre um terceiro médico e possíveis contas bancárias abertas em paraísos fiscais por esse grupo suspeito.

Como a Folha revelou neste mês, o Einstein apresentou à polícia, após investigação interna, denúncia contra médicos suspeitos de receber pagamentos para favorecer uma empresa que fornece próteses.

Os novos indícios foram encontrados pelos policiais após análise dos documentos entregues pelo hospital.

Num primeiro momento, eram alvo da investigação os cardiologistas Marco Perin e Fábio Sandoli Brito Júnior, que comandaram, até junho deste ano, o Centro de Intervenção Cardiovascular.

Os dois foram afastados do comando do setor após a descoberta de indícios do suposto esquema. Perin foi demitido.

Os papéis entregues pela direção do hospital à polícia, porém, indicam uma espécie de sociedade entre os dois e o também cardiologista Alexandre Antônio Cunha Abizaid –outro renomado médico do Einstein e também diretor do Dante Pazzanese, hospital público referência na cardiologia do país.

Em um dos e-mails corporativos em poder da polícia, de junho de 2015 e com o assunto “acerto de contas”, os médicos discutem a divisão de recursos em partes iguais.

“Se somarmos os 3 valores e dividirmos igualmente por 3, o total que cada um deveria receber seria de 141.470,00 reais”, diz trecho da mensagem obtida pela reportagem.

Não há informações nesse e-mail sobre qual seria a origem de tais recursos.

Em outras mensagens, porém, Perin (ex-chefe do centro de cardiologia) indica suas contas bancárias para recebimento de repasse de pessoas ligadas à CIC Cardiovascular.

Indicação de leitura: Ebook Lean Six Sigma em Saúde.

Supostamente envolvida no esquema, essa empresa teve aumento de 740% nas vendas de stents (tubos para regular o fluxo sanguíneo) para o Einstein de 2012 a 2015.

“Carlos [nome do contador da CIC], pode colocar na minha conta, como sempre”, diz Perin em uma das conversas.

De acordo com a denúncia feita pelo Einstein à polícia, Perin disse à cúpula do hospital que recebeu dinheiro da CIC, mas os recursos seriam a devolução de empréstimo feito para capitalizar a empresa.

Perin também disse aos chefes que, além dele, tanto Brito Júnior quanto Abizaid também tinham feito empréstimo à CIC. O nome dos médicos constam na denúncia feita pelo Einstein à polícia.

Entre as mensagens de 2012 está a tratativa entre o trio de médicos para a abertura de uma holding no Reino Unido ou no Caribe com um suposto sócio da Suíça.

A holding seria, segundo as mensagens, uma espécie de guarda-chuva de empresas dos três cardiologistas investigados.

Os médicos discutem valores e qual o melhor país para a instalação da holding, mas nos documentos não há conclusão se essa empresa foi ou não aberta –o que agora será alvo da apuração policial.

Segundo policiais ouvidos pela reportagem, uma das linhas de investigação é saber se os médicos são sócios ocultos da fornecedora CIC –que tem como representante uma ex-enfermeira do Einstein. E, também, se criaram offshore no exterior para facilitar o recebimento de recursos.

Investigadores devem pedir a quebra de sigilo dos suspeitos. Se as transações internacionais se confirmarem, parte das investigações deve ser repassada à Polícia Federal.

Médicos negam

Os médicos investigados pela polícia por suposta ligação com fornecedor de prótese cardíaca no hospital Albert Einstein negam irregularidade na relação com a empresa.

Segundo Alexandre Abizaid, ele e seus colegas fizeram empréstimo à ex-enfermeira do Einstein Fátima Martins para ajudá-la a criar a CIC Cardiovascular em 2012.

A intermediação do financiamento, afirma, foi feita por Marco Perin. “Ele perguntou quanto eu poderia emprestar.”

Abizaid diz ter emprestado “à pessoa física” de Fátima (e não à empresa dela) para não se envolver com a “indústria”. “Eu nunca me senti obrigado a usar determinado stent.

Nunca na minha vida, você pode vasculhar, recebi benefício para usar um stent versus outro. Ou qualquer tipo de relação espúria”, afirmou.

Abizaid disse ter emprestado dinheiro para a ex-enfermeira, que conhecia do trabalho, mediante pagamento de juros. Disse ter emprestado R$ 170 mil e recebido R$ 250 mil, divididos em 24 vezes.

O médico não soube informar o valor exato do juros. Disse que foram “juros mais ou menos dentro do mercado, ou talvez um pouquinho mais” –em torno de 2% ao mês.

O médico não apresentou cópia do contrato de empréstimo com Fátima –embora tivesse de posse de uma série de documentos durante entrevista à Folha. Disse que providenciaria isso futuramente.

Sobre a divisão de recursos com os colegas do Einstein descrita em e-mail (no valor de R$ 141.470), ele nega que tenha vindo de fornecedores. Disse que são recursos de procedimentos feitos no Einstein –com aval do hospital– em sistema que os pacientes pagam diretamente aos médicos.

A divisão seria igualitária porque o trio forma uma espécie de sociedade informal para essas intervenções.

O médico disse que teve intenção de abrir em 2012 uma holding para receber por trabalhos internacionais, com palestras e consultorias, mas o projeto não vingou em razão de custos.

Disse que chamou Perin e Brito Jr. para esse projeto principalmente por gratidão pelo emprego no Einstein, além da capacidade profissional de cada um.

Procurado por meio de sua assessoria, o hospital Albert Einstein informou que “Abizaid continua a prestar serviços na área de cardiologia intervencionista sem ocupar cargo de liderança”.

“Sempre agindo com diligência e zelo pelo paciente, o hospital aguarda as conclusões da investigação policial para tomar outras eventuais providências, caso sejam necessárias”, diz a nota.

Já o cardiologia Fábio Sandoli Brito Jr. preferiu não se pronunciar. Na semana passada, ele havia negado qualquer tipo de irregularidade. “Por recomendação de meu advogado, Antônio Sérgio de Moraes Pitombo, não me manifestarei por enquanto.”

O médico Marco Perin também não quis se manifestar. À direção do hospital, ele também disse ter emprestado recursos à CIC. Afirmou que os repasses eram a devolução desse dinheiro. Fátima Martins não foi localizada.

Fonte: Folha de São Paulo-21.09.2016.

 

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