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Brasil poderia tirar lições de outros sistemas de saúde, diz pesquisador

Por Roberta Massa B. Pereira | 06.03.2017 | Sem comentários

O Brasil deveria aprender com outros países como melhorar a qualidade, reduzir custos e trazer mais eficiência para o sistema de saúde.

Por exemplo, inovar os cuidados na atenção primária para evitar hospitalizações, como ocorre em Israel, ou permitir consultas on-line, como acontece na Índia.

O conselho é de Mark Britnell, 51, autor de “In Seach of the Perfect Health System” (Buscando o sistema de saúde perfeito), que já trabalhou em 68 países e estudou a fundo os sistemas de 30 deles.

Um dos ex-diretores do sistema de saúde britânico (NHS) e atual líder global da prática de healthcare da consultoria KPMG, Britnell elogia o Programa de Saúde da Família brasileiro, diz que ele inspirou países da África e da Ásia e deve ser incentivado.

A seguir, trechos da entrevista que deu à Folha.

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Folha – Um sistema de saúde perfeito não existe. Mas se existisse, como seria?

Mark Britnell – Não há um sistema de saúde perfeito, mas cada país tem algo a ensinar e algo a aprender.

Com o Brasil não é diferente. Embora eu diga que nenhum país possa reivindicar ter o melhor sistema de saúde do mundo, há algumas facetas de sistemas de alto desempenho que todos os países poderiam aprender.

Quais os pontos fortes do Brasil e quais lições podemos aprender com esses países?

Eu acho que o Brasil tem alguns bons pontos fortes no SUS e no seu Programa Saúde da Família (PSF). A Rio Saúde também é um modelo que funciona bem.

A empresa mistura administração pública e privada e aplica com sucesso conceitos bem conhecidos por outras indústrias e, agora, a da saúde para melhorar qualidade, reduzir custos e ganhar eficiência.

O Brasil pode aprender muito com Israel em cuidados primários. Combinam seguradora de saúde com prestador de serviços em saúde.

A seguradora tem o incentivo para manter as pessoas bem e fora do hospital.

Israel tem excelentes cuidados primários, com a maioria das suas instalações de diagnóstico na comunidade para que os pacientes não tenham que ir ao hospital.

Da mesma forma, o país faz muito melhor uso da tecnologia, com registros médicos eletrônicos e consultas telefônicas mais rápidas, mais acessíveis e mais baratas para os pacientes.

O Programa Saúde da Família (PSF) no Brasil está praticamente estagnado. É um erro?

O PSF é mencionado em meu livro como um dos 11 exemplos de melhores práticas no mundo.

Cuidar pró-ativamente das famílias e das comunidades é bom para a promoção da saúde e para a prevenção de doenças.

O PSF tem inspirado países no mundo, especialmente na África e na Ásia.

É uma falsa economia cortar programas de cuidados primários, porque a doença vai aparecer na sala de emergência. É pior para o doente e para o contribuinte.

Na sua opinião, qual é o principal desafio do SUS?

Qualquer sistema de saúde universal, como o SUS, precisa de uma economia forte e transparente para apoiá-lo.

O congelamento federal do orçamento da saúde vai colocar uma enorme pressão sobre o SUS, mas isso não pode enfraquecer o sistema. Ele tem sido uma inspiração para muitos países.

O Brasil já gasta cerca de 10% de seu PIB na saúde, mas seu desempenho, qualidade e expectativa de vida podem ser melhorados.

Os EUA gastam quase 18% do PIB em um sistema com cuidados de saúde universais limitados.

Boa saúde nacional, em última instância, leva a uma melhor riqueza nacional. A cada US$ 1 gasto em cuidados de saúde, US$ 4 são gerado na economia.

No Brasil, parcerias entre o público e o privado costumam inspirar desconfiança. O Sr. argumenta que elas podem ser uma saída para o setor de saúde. Como avançar?

Os setores público e privado da saúde no Brasil parecem estar indo em direções diferentes e isso não é bom para o país, para a coesão social e para a eficiência.

Em muitos países de renda média, há vários exemplos bem-sucedidos de parcerias público-privadas de longo prazo.

Esses relacionamentos poderiam resultar em escolas médicas conjuntas, novos centros de atendimento ambulatorial conjuntos, pacientes públicos sendo tratados em estabelecimentos particulares a preços determinados.

A corrupção tem prejudicado contratos nos setores público e privado e isso precisa ser passado a limpo para melhorar o valor do dinheiro, a confiança e o investimento de longo prazo.

Planos de saúde no Brasil têm discutido a transição de um modelo de pagamento por serviço. Como os outros países estão lidando com isso?

É correto afastar-se do modelo de pagamentos por serviços, pois eles são inflacionários.

É o caso dos Estados Unidos, onde agora estão tentando mover-se para pagamentos por pacotes em até 80% dos procedimentos.

Na Europa, muitos países estão usando pagamentos agrupados ou baseados em valor para reduzir a inflação dos custos em saúde e melhorar a qualidade.

Consultas virtuais são proibidas pelo conselho médico brasileiro. Outros países têm feito mais progressos nesta área?

Eu realmente acho que o Brasil está perdendo uma oportunidade aqui, pois poderia ser um líder global em tecnologia de alto valor aplicada aos cuidados de saúde.

Na Índia, smartphones são agora utilizados pelos pacientes para chamar remotamente um médico ou uma enfermeira num call center, que usam a melhor base de evidência clínica e algoritmos para fazer um diagnóstico por telefone.

Em seguida, a receita é enviada eletronicamente para a farmácia mais próxima do paciente.

Diante dos desafios remotos e rurais no Brasil, acredito que isso pode funcionar aqui também.

E nas áreas urbanas é especialmente popular entre os jovens que não querem perder tempo em fila para ver um médico.

O envelhecimento populacional é visto como um dos principais desafios para os sistemas de saúde. Como torná-lo mais sustentável?

Quase todos os países estão falando sobre o envelhecimento da população e alguns poucos-como Japão, Holanda e Cingapura-estão começando a tomar medidas.

No Japão, há uma das melhores práticas que eu vi.

Trata-se de um sistema integrado de cuidados baseados na comunidade que presta serviços como bem-estar, cuidados de saúde, cuidados de longa duração e medidas preventivas.

Esse tipo de abordagem evita os riscos de se criar “guetos de idosos”.

A tecnologia também tem papel importante no gerenciamento do paciente idoso.

Os sistemas remotos de monitoramento ajudam o pessoal clínico a intervir apenas quando necessário, permitindo-lhes responder a um problema antes de se tornar uma emergência hospitalar.

Reconhece-se cada vez mais o valor dos programas de prevenção dirigidos aos idosos, como o aumento da atividade física, o uso eficaz dos medicamentos e a redução do risco de quedas.

Fonte: Folha de São Paulo-06.03.2017.

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