Gestão

Corujão da Saúde: após programa espera para exame chega a 336 dias

Por Roberta Massa B. Pereira | 02.10.2017 | Sem comentários

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Um paciente com incontinência urinária levará em média 336 dias para conseguir fazer um exame detalhado na rede municipal de saúde.

O intervalo é o previsto para a realização da avaliação urodinâmica completa, diagnóstico com maior tempo de espera na rede municipal.

Embora a fila de exames em São Paulo tenha diminuído, a maioria dos procedimentos ainda tem uma espera maior que a prometida pelo programa Corujão da Saúde.

O programa prometia zerar a fila até abril mas envolveu só seis tipos de exames de imagem.

Depois, o prazo seria normalizado em 30 dias. Posteriormente, Doria estendeu o limite para 60 dias.

O Corujão da Saúde é hoje um exemplo nacional de eficiência na gestão pública de saúde.

Existem filas, mas são administráveis para um prazo de 30 dias para os mais urgentes e de 60 dias para os demais tipos de exame, disse o tucano no último dia 11.

Lean Six Sigma

De janeiro a abril, de fato, o Corujão acabou com a lista de espera herdada da gestão Fernando Haddad (PT).

No entanto, três meses depois, uma nova fila surgiu, com outros exames e novos pacientes

Mostram dados da Secretaria Municipal da Saúde enviados à Folha depois de pedido feito por meio da Lei de Acesso à Informação.

No total, há 128 diagnósticos com tempo médio de espera informado. Desses, 84% levam mais de 30 dias e 64%, mais de 60.

O tempo médio de espera é de 89 dias. No total, a fila tem 215 mil procedimentos cada um pode se referir a mais de um paciente.

O quadro já foi pior. Em janeiro, havia 485 mil na fila desde 2016, na gestão petista. O contraste entre a situação atual e a propaganda, porém, frustra usuários do SUS.

“Não disseram que tinha acabado a fila?”, questiona a dona de casa Aparecida Silva, 50.

Com asma, ela aguarda desde maio de 2015 por uma espirometria, exame que avalia a capacidade pulmonar.

A redução da fila de exames é apresentada como vitrine pela administração tucana.

Doria trava disputa interna no PSDB com o governador Geraldo Alckmin para a escolha do candidato do partido nas eleições à Presidência no ano que vem.

Para ser candidato ao Planalto (ou mesmo ao governo paulista), porém, o prefeito terá de deixar o cargo até o início de abril (seis meses antes da eleição).

Cirurgias

Entre as cirurgias, o problema na rede municipal é ainda mais grave. A espera média é de 142 dias, e a fila tem um total de 108 mil procedimentos.

A maior demora é para fazer um procedimento na área de otorrinolaringologia, como a retirada de amídalas. A média de espera nesse caso é de 275 dias.

Como os números representam uma média, há pacientes que relatam esperar há muito mais tempo.

Esse é o caso de Joana DArc Mendes da Silva, 60. Ex-auxiliar de limpeza, tem há três anos uma lesão no pulso.

“Eu limpava sozinha dez banheiros e 12 salas. Estava torcendo um pano quando vi um estalo.”

Foi diagnosticada no Hospital Municipal do Campo Limpo com síndrome do túnel do carpo, causada pela compressão de um nervo e que provoca dores e formigamento.

“O médico me disse que eu tinha que fazer uma cirurgia, que meu nome estava numa lista, para esperar”. De tempos em tempos, ela ia lá verificar. Depois, desistiu.

Sem condições de trabalhar na antiga função, hoje vende churrasquinho, mas sente falta de conseguir arear panelas e torcer roupas molhadas sem sentir uma fisgada.

A espera foi em vão. Procurada, a secretaria diz que não há registro da solicitação de cirurgia.

Professor da Faculdade de Medicina da USP, Mário Scheffer lembra que, além de gerar sofrimento, a espera longa pode piorar o estado de saúde de pacientes e até causar danos irreversíveis.

Para ele, falta transparência ao sistema de gestão, no qual o cidadão não consegue saber qual é a sua posição na fila.

Em sua avaliação, a divulgação de tempos máximos de espera pela secretaria poderia minimizar a situação.

Com problema similar de filas, a Prefeitura de Santo André, na Grande SP, lançou um programa para zerar a fila de exames e consultas.

Uma das ações previstas é a troca de débitos tributários por atendimentos de saúde. Ou seja, clínicas e hospitais podem abater parte de sua dívida com o município realizando atendimentos.

Pelo balanço divulgado na terça (26), foram 10 mil procedimentos com essa iniciativa. No total, com essa ação e mutirões, a fila passou de 128 mil solicitações para 58 mil.

Outro Lado

O secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, afirma que as filas da saúde na gestão Doria estão “totalmente sob controle”.

Segundo ele, atualmente os prestadores da prefeitura têm capacidade para fazer mais de 87 mil exames por mês dentre os incluídos no Corujão da Saúde, e a demanda atual é menor que essa –por isso, ninguém vai esperar mais de um mês para esses diagnósticos.

Em relação aos demais procedimentos, Pollara afirma que muitos dos que ainda estão na fila não precisariam mais do exame, porque entraram há muito tempo na lista.

“Se for ligar para essas pessoas, vai sobrar um décimo. Muitas vezes o paciente é operado antes, ou acontece outra coisa.”

Ainda assim, o prazo que ele avalia ser adequado é de 30 a 60 dias.

Segundo Pollara, a maior evidência de sucesso é a redução das solicitações mensais de novos diagnósticos, de 200 mil por mês para 80 mil.

A diminuição, afirma ele, ocorreu após diálogos com profissionais das unidades da rede.

Já a situação das cirurgias é mais complexa, afirma Pollara, pois demanda vagas em hospitais, médicos e outros recursos.

A pasta lançou recentemente um programa para reduzir a fila desses procedimentos. “No ano que vem vai estar bem melhor”, promete.

“O SUS vai melhorar tanto que vai ter plano de saúde preocupado.”

Em relação ao caso de Aparecida da Silva, a secretaria disse que, em janeiro deste ano, a solicitação para ela realizar uma espirometria foi “desativada” por “ultrapassar 180 dias”.

“Por se tratar de exame muito específico (não relacionado nos seis do Corujão da Saúde, inclusive), a fila de espera é excepcional à regra de 60 dias”, afirma.

O órgão informou, porém, que, devido a uma desistência, a paciente já foi encaixada para fazer o procedimento nesta semana.

Em relação ao caso de Joana D’Arc Mendes da Silva, a Autarquia Hospitalar Municipal disse que ela passou por consulta há dois anos e que a equipe tentou entrar em contato para dar continuidade ao tratamento, com fisioterapia.

A casa de Joana não tem telefone. O órgão municipal afirmou não ter registro da indicação para a cirurgia que ela espera.

Fonte: Folha de São Paulo – 02.10.2017.

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