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SP se consolida a capital da saúde e atrai pacientes latinos e africanos

Por Roberta Massa B. Pereira | 17.09.2018 | Sem comentários

Veja bem aquele estrangeiro. Entre os quase 3 milhões de visitantes vindos do exterior para São Paulo por ano, há um tipo peculiar: o turista paciente.

A cidade se consolidou como a capital latino-americana da saúde, sendo a que mais recebe forasteiros em busca de tratamentos e diagnósticos médicos.

Esse potencial do turismo de saúde é claro para hospitais, que têm investido tanto nas certificações internacionais de qualidade quanto no preparo de equipes médicas e de receptivo especializadas.

A dentista boliviana Maria Paula, 58, teve um problema vascular e veio fazer exames na capital. “Tenho seguro internacional.

Os índices de qualidade dos hospitais daqui são melhores.”

Depois do diagnóstico, ficou na cidade para uma cirurgia de varizes no Oswaldo Cruz.

Além de indicadores de qualidade, para ela faz diferença o carinho com que os pacientes são tratados.

“Quem vem se tratar sempre comenta. A maior divulgação dos hospitais de São Paulo-SP é no boca a boca.”

O restante da cadeia turística, do setor hoteleiro ao de entretenimento, também vê muitas oportunidades nesses visitantes.

Segundo Julia Lima, presidente da Abratus (Associação Brasileira de Turismo de Saúde), é um viajante que fica mais tempo na cidade (em média, dois meses).

Costuma trazer mais acompanhantes e gasta em cultura e entretenimento tanto ou mais que um turista convencional.

No entanto, ele permanece meio oculto.

Entende-se: a maioria das pessoas não gosta de alardear suas doenças, e os centros de tratamento mantêm o compromisso de respeitar a privacidade de seus clientes e o sigilo médico.

Por isso, há muitos dados mascarados.

Mas estima-se que, no total, o Brasil receba mais de 55 mil turistas de saúde por ano; destes, quase 70% vêm para São Paulo-SP.

A primeira instituição de saúde fora dos EUA a receber a acreditação da JCI (Joint Commission International) foi o Hospital Albert Einstein.

A comissão norte-americana certifica serviços em mais de cem países e receber seu selo.

Que atesta segurança e qualidade no atendimento médico, teve impacto na procura de pacientes internacionais por hospitais paulistanos, diz Sidney Klajner.

Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

Duas décadas após ter o primeiro hospital acreditado, em 1999, a cidade concentra 28 das 63 unidades de saúde brasileiras certificadas pela influente instituição.

O número inclui, além de hospitais, serviços como atendimento móvel, ambulatório, programas científicos e seguradoras.

Para Antonio Bastos, superintendente médico do hospital Oswaldo Cruz, além da chancela das entidades de acreditação.

Os hospitais da capital se diferenciam por investimentos pesados em pesquisa e em novos equipamentos e tecnologias de saúde.

Isso atrai especialmente pacientes das Américas do Sul e Central.

Além da proximidade geográfica e de certa facilidade com a língua.

Eles encontram em São Paulo os mesmos tratamentos de ponta oferecidos pelos melhores hospitais norte-americanos por, pelo menos, metade do custo.

Cone Sul, Angola e Moçambique

No fluxo da saúde na cidade de São Paulo, a quantidade de pacientes provenientes do Cone Sul é a que mais chama a atenção.

Não há estatística oficial (um dos problemas deste segmento do turismo), mas esta é a percepção dos médicos e administradores de hospitais e clínicas.

Que começaram a receber estrangeiros há 20 anos.

Na última década, também foi observado um aumento de turistas de saúde vindos de países lusófonos, principalmente Angola e Moçambique.

Para os que podem pagar, a vantagem de se tratar com um médico que fala sua língua não tem preço.

Muitas vezes, são os próprios médicos em seus países de origem que recomendam o tratamento em São Paulo, como no caso de um executivo peruano que prefere não se identificar.

Por causa de um problema cardíaco, ele costumava fazer o check-up anual nos EUA.

“Foi meu médico quem disse que São Paulo tem os mesmos serviços e equipamentos por preço menor”, conta. “Vim fazer o check-up e foi a melhor decisão.”

Desde então, o peruano passou a fazer não só os exames, mas todo o tratamento cardiológico no HCor.

Quando precisou de uma cirurgia no joelho, ele também escolheu o hospital paulistano para se submeter ao procedimento médico.

Devido à demanda estrangeira, hospitais da capital investem em treinamento de equipes e na criação de centros especializados no atendimento de estrangeiros.

O Albert Einstein, por exemplo, criou o Capi (Centro de Apoio ao Paciente Internacional), em que profissionais poliglotas ajudam o turista a agendar consultas, encontrar hospedagem, locomover-se pela cidade e cuidar de burocracias com as seguradoras do exterior.

O mesmo tipo de serviço é disponibilizado na área de atendimento internacional do A.C. Camargo, pelas concierges bilíngues do Sírio-Libanês e por aí vai.

Em alguns casos, a atenção recebida é quase a mesma de um médico de família ou amigo íntimo.

A gerente de relacionamento do HCor, Marina Cervantes Castelo Branco Castro, afirma não se cansar de atender o celular no meio da noite para ajudar algum paciente ainda inseguro numa cidade estranha.

Esse tipo de cuidado é mais um motivo para os estrangeiros procurarem São Paulo para tratar da saúde.

“O profissional de saúde brasileiro é mais caloroso, deixa o paciente mais à vontade.

O tratamento fica mais humanizado.

Nem sempre a medicina é mais barata mas, além da excelência, aqui há mais flexibilidade”, diz o oncologista Frederico Costa, do Sírio-Libanês.

Saúde & beleza x medicina de alta complexidade

O interesse pelo Brasil em geral como destino de turismo de saúde começou pela estética: o país é famoso por seus cirurgiões plásticos e tratamentos dermatológicos.

A procura continua mas, hoje, perde para especialidades da medicina de alta complexidade.

Dono de um banco de dados com mais de 3.000 pacientes estrangeiros, o oncologista clínico Frederico Costa, do Hospital Sírio-Libanês, diz que essas pessoas procuram as instituições médicas da cidade por duas motivações:

Não encontram solução para seu problema no país de origem ou querem uma segunda opinião de profissionais reconhecidos internacionalmente.

A medicina avançada praticada na capital colocou o país no 22º lugar do ranking de turismo médico.

Elaborado pelo IHRC (Centro Internacional de Pesquisa em Cuidados de Saúde, na sigla em inglês) e a Associação de Turismo Médico, instituição estrangeira sem fins lucrativos.

A associação brasileira, Abratus, está trabalhando para melhorar a posição no ranking.

A meta da atual gestão é chegar aos 2 milhões de turistas de saúde por ano até 2030.

Para isso, iniciou um trabalho de levantamento de números mais abrangentes, já que há poucos dados oficiais consolidados.

E programas de formação da cadeia de fornecedores para receber este perfil de visitante.

Fonte: Folha de São Paulo – 17.09.2018.

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