Sustentabilidade

Doenças por falta de saneamento custam R$ 100 milhões ao SUS

Por Roberta Massa B. Pereira | 21.09.2018 | Sem comentários

As internações hospitalares de pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS), por doenças causadas pela falta de saneamento básico e acesso à água de qualidade, ao longo de 2017, geraram um custo de R$ 100 milhões.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, ao todo, foram 263,4 mil internações.

O número ainda é elevado, mesmo com o decréscimo em relação aos casos registrados no ano anterior, quando 350,9 mil internações geraram custo de R$ 129 milhões.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cada dólar investido em água e saneamento resultaria em uma economia de US$ 4,3 em custos de saúde no mundo.

Recentemente, organizações ligadas ao setor privado de saneamento, reunidas em São Paulo, reforçaram a teoria da economia produzida por este investimento.

Pelas contas do grupo, a universalização do saneamento básico no Brasil geraria uma economia anual de R$ 1,4 bilhão em gastos na área da saúde.

No mesmo evento – Encontro Nacional das Águas –, os representantes das empresas apontaram que dos 5.570 municípios do país.

Apenas 1.600 têm pelo menos uma estação de tratamento de esgoto e 100 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à tratamento de esgoto.

Atualmente, de acordo com o Instituto Trata Brasil, apenas 44,92% dos esgotos coletados no país são tratados.

O Brasil tem uma meta de universalização do saneamento até 2033.

Este objetivo previsto no Plano Nacional de Saneamento Básico, representaria um gasto de cerca de R$ 15 milhões anuais, ao longo de 20 anos.

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E este é um dos desafios para os governantes a serem eleitos em outubro.

A reportagem visitou Maceió, capital de Alagoas, cidade onde o percentual de coleta de esgoto é 11 pontos percentuais inferior à media do país (51,9%).

Maceió Quem chega a Maceió logo se deslumbra com azul do mar e a simpatia dos moradores.

Mas, basta um olhar mais atento, em direção oposta à praia, para concluir que o deleite visual produzido pela natureza disputa espaço com canais de esgoto a céu aberto

O mais grave é que grande parte dos dejetos, que corre ao longo de rios e riachos e cruza diversos bairros da cidade, acaba desaguando no mar.

“Temos praias lindas, mas nós não usamos porque sabemos que são bem poluídas.

Temos a Lagoa Mundaú, dentro da cidade, e correndo para ela que tem vários braços de rios e riachos que, inclusive passam por bairros nobres.

E todos servem para despejo de dejetos e lixos das casas”, lamentou a advogada Rita Mendonça.

Alagoana e atuante em direitos humanos, Rita reconhece que foram feitos investimentos na área de saneamento, mas a população cresceu em velocidade desproporcional aos recursos aplicados.

Outro alerta recai sobre a falta de conscientização dos próprios habitantes. “As pessoas jogam lixo nesses rios e riachos porque não podem esperar o lixeiro passar.

E todos desembocam no mar”, disse.

A realidade para quem vive o dia a dia na capital alagoana tem reflexos que vão além da balneabilidade das praias urbanas.

Na economia, famílias que já vivem em situações mais precárias e dependem da pesca do sururu correm o risco de terem a fonte de renda comprometida.

Em 2014, o molusco, largamente encontrado nas regiões lacustres de Alagoas em função dos encontros de água doce e salgada, foi registrado como patrimônio imaterial do Estado.

Moradores, agora, relatam e lamentam a redução do volume pescado em decorrência da poluição da água.

O comércio é também alvo do problema.

Empresária e dona de uma loja de roupas no bairro da Jatiúca, Vanessa Taveiros aponta para o esgoto que corre ao lado de um dos restaurantes mais badalados de Maceió.

“Já foram feitas várias denúncias e nada é feito.

Quando chove, tudo fica alagado, tem ruas aqui na Jatiúca que nenhum carro passa e os lojistas ficam sem vender porque fica tudo interditado”, disse.

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Na saúde, os problemas relacionados ao saneamento aparecem em números de sete dígitos.

Segundo o Ministério da Saúde, em todo o Estado, ao longo de 2017, foram gastos mais de R$ 2,2 milhões com 5.183 internações no SUS.

De pacientes com doenças ligadas à falta de saneamento básico e acesso à água de qualidade.

No mesmo ano, em todo o país, o total de gastos com este tipo de internação somou R$ 100 milhões.

O rol dessas doenças inclui desde diarreias e problemas dermatológicos até infecções mais graves, cólera, sarampo, além do agravamento de epidemias.

Já que a exposição do esgoto a céu aberto aumenta condições para a proliferação do mosquito transmissor de dengue, chikungunya e zika.

Maceió não é uma cidade planejada e é possível ver que o problema do saneamento afeta todas as classes econômicas.

Algumas ruas começam na praia, como na Jatíuca, com prédios e casas visualmente de classe média alta, e terminam em trechos extremamente pobres.

O despejo de lixo nos rios e riachos é feito por parte da própria população, mas também é parte dos alagoanos que lamenta os efeitos dessa prática.

“Não vou esquecer nunca. A gente saia da escola e vinha direto para a Praia da Avenida.

Era aqui que passávamos os finais de semana com a família também.

Agora é impossível”, lamentou o taxista, de 54 anos, que não quis se identificar.

Segundo ele, até dejetos de um hospital foram lançados pelo canal que desemboca na praia que faz parte de seu imaginário.

A concessão dos serviços de saneamento é da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) que, em função do período eleitoral, preferiu não conceder entrevistas.

Em nota enviada à reportagem, assessores informaram que, dos 102 municípios do Estado, a Casal opera em 77.

Desses, 12 têm rede coletora de esgoto, incluindo Maceió.

Em vários municípios do interior, existem obras de implantação de rede da Funasa e da Codevasf, que são órgãos federais.

“Somente após a conclusão dessas obras é que os sistemas são entregues para a Casal operar”, informou a nota.

De acordo com o Ministério das Cidades, estão previstos no orçamento investimentos da ordem de R$ 277 milhões para a capital alagoana.

Esse total inclui desde abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e estudos e projetos.

“Já foram concluídos 5 empreendimentos, no valor de R$ 76,5 milhões, beneficiando 83,8 mil famílias”, informou a assessoria do órgão.

Ainda diante de números produzidos pela pasta – divulgados pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

Em 2016, 96,2% da população de Maceió foi atendidas com rede geral de abastecimento de água e 40,3%, com coleta de esgoto, “independentemente de existir tratamento”.

Com relação ao total da população representada pelos municípios que responderam ao SNIS no ano de referência.

Maceió tem o índice de abastecimento de água superior à média do Brasil (93%) e índice de atendimento total de esgoto 11 pontos percentuais inferior ao do país (51,9%).

Fonte: Valor Econômico – 21.09.2018.

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