Pesquisa

Custos crescentes da maternidade pegam mulheres desprevenidas

Por Roberta Massa B. Pereira | 25.09.2018 | Sem comentários

Profissionais com educação superior subestimam exigências da maternidade, dizem pesquisas.

Um dos mistérios econômicos das últimas décadas é por que não há mais mulheres trabalhando.

Um novo trabalho oferece uma resposta: a maioria pretende trabalhar, mas é cada vez mais apanhada desprevenida pelo tempo e o esforço necessários para criar filhos.

A porcentagem de mulheres na força de trabalho dos Estados Unidos se estabilizou desde os anos 1990, depois de subir constantemente durante meio século.

Hoje, a porcentagem de mulheres entre 25 e 54 anos que trabalham é a mesma que em 1995.

Apesar de nessas décadas intermediárias mais mulheres terem se formado em faculdades que os homens.

Entrando em empregos antes bloqueados para elas e adiando o casamento e a geração de filhos.

A nova análise sugere que algo mais também começou a acontecer durante os anos 1990. A maternidade se tornou mais exigente.

Os casais hoje gastam mais tempo e dinheiro cuidando dos filhos.

Eles sentem mais pressão para amamentar, fazer atividades enriquecedoras com os filhos e fornecer supervisão de perto.

Uma consequência é que as mulheres subestimam os custos da maternidade.

O desacerto é maior entre as formadas em faculdades, que investem em uma educação e esperam manter uma profissão.

Escreveram os autores, Ilyana Kuziemko e Jenny Shen, da Universidade Princeton, Jessica Pan, da Universidade Nacional de Singapura, e Ebonya Washington, da Universidade Yale.

O estudo — um trabalho em curso, que ainda não foi publicado— tenta qualificar o que muitos pais sentem quando lutam com o estresse de longas horas de trabalho inflexível.

Combinadas com as exigências de aulas STEM (currículo escolar baseado ciência, tecnologia, engenharia e matemática).

Regras de tempo passado no computador ou na televisão, preparação para a faculdade, jantares de família e doenças das crianças.

Os pesquisadores documentaram um declínio acentuado no emprego de mulheres depois que seus primeiros filhos nasceram, tanto nos EUA como no Reino Unido, apesar de 90% delas trabalharem antes de ter filhos.

Eles usaram dados das pesquisas longitudinais nacionais do Departamento do Trabalho, do Estudo de Dinâmica de Renda da Universidade de Michigan e da Pesquisa de Painel de Famílias Britânicas.

Cada uma cobre várias décadas, mas o estudo enfocou principalmente mulheres nascidas entre 1965 e 1975, que estavam na casa dos 30 nos anos 2000.

Para muitas delas, afirmam os pesquisadores, parar de trabalhar não foi planejado.

Desde mais ou menos 1985, não mais que 2% das alunas do último ano do curso secundário diziam que pretendiam ser donas de casa aos 30 anos, apesar de a maioria planejar ter filhos.

As pesquisas também não encontraram declínio na satisfação geral no emprego depois da maternidade.

Mas de forma consistente entre 15% e 18% das mulheres ficaram em casa.

Uma chave para se compreender por que as mulheres divergiram de seus planos, segundo os economistas, é que suas teses sobre os papéis de gênero mudam depois do primeiro filho.

As pesquisas fazem perguntas sobre se o trabalho inibe a capacidade da mulher ser uma boa mãe e se os dois pais devem contribuir financeiramente para a família.

As mulheres tendem a dar respostas mais tradicionais depois da maternidade.

As pessoas mais surpresas com as exigências da maternidade foram as que os pesquisadores menos esperavam:

Mulheres com diplomas universitários, ou que tiveram bebês mais tarde, as que tiveram mães trabalhadoras e as que supunham que teriam carreiras profissionais.

Embora as mães com educação superior tivessem menor probabilidade de deixar o trabalho do que mães menos instruídas.

Elas eram mais propensas a manifestar ideias contra o trabalho e a dizer que ser mãe era mais difícil do que esperavam.

Apesar de o estudo não analisar o papel dos pais em profundidade, ele descobriu que suas ideias não mudavam de modo significativo antes e depois de ter um bebê.

Eles tinham menor propensão que as mulheres a dizer que a paternidade era mais difícil do que eles imaginavam.

(As mulheres ainda fazem a maior parte do cuidado dos filhos, mesmo em famílias em que os dois trabalham.)

As mulheres entenderam tão errado, afirmam os pesquisadores, porque se tornou mais difícil trabalhar e ter filhos.

O custo da maternidade caiu na maior parte do século 20 por causa de invenções como lavadoras de prato, alimentos prontos para bebês e a pílula anticoncepcional.

Mas esse não é mais o caso, segundo dados citados no trabalho.

O custo de cuidar dos filhos aumentou 65% desde o início dos anos 1980.

Oitenta por cento das mulheres amamentam, contra cerca de 50% antes.

O número de horas que os pais passam cuidando dos filhos aumentou, especialmente para pais de instrução superior, para os quais ele duplicou.

Em geral, as mulheres tiveram grande sucesso ao entrar na força de trabalho.

Setenta por cento das mães com filhos menores de 18 anos trabalham.

As mulheres são mais propensas a trabalhar que as gerações anteriores em quase todas as idades, diz Claudia Goldin, economista de Harvard.

Elas têm probabilidade ligeiramente maior de parar no final dos 30 anos e início dos 40, mais ou menos na época em que muitas estão cuidando de filhos pequenos, mas geralmente voltam à força de trabalho, particularmente se tiverem diploma.

Ainda assim, o novo trabalho levanta perguntas sobre por que o malabarismo trabalho-família parece estar ficando mais difícil.

“É profundamente intrigante que em um momento em que as mulheres estão mais preparadas que nunca para longas carreiras profissionais as normas mudem de maneira que as incentiva a passar mais tempo em casa”, afirmam os pesquisadores.

Um motivo possível é que cada vez mais pessoas que trabalham em horários longos e inflexíveis ganham desproporcionalmente mais, segundo a pesquisa de Goldin.

Mais mulheres com diplomas e esses tipos de empregos exigentes estão tendo filhos, e é provável que elas sejam casadas com homens com empregos semelhantes, diz Marianne Bertrand, economista da Universidade de Chicago.

Uma consequência é que os casais com duplo salário podem sentir que a melhor opção é que um deles, geralmente a mãe, deixe o trabalho para que o outro possa maximizar os ganhos da família.

Para tentar colocar os filhos no melhor caminho na crescente concorrência por admissão na faculdade, os pais, especialmente de instrução superior, investem significativamente mais tempo que antes em cuidar das crianças, segundo Valerie Ramey e Garey Ramey, economistas da Universidade da Califórnia em San Diego.

Eles descreveram isso como a corrida de ratos no tapete pelas principais universidades.

A falta de políticas favoráveis às famílias nos Estados Unidos —como licença familiar remunerada e cuidados dos filhos subsidiados— provavelmente também tem um papel nisso.

Embora as políticas tenham melhorado um pouco desde o início dos anos 1990, a participação das mulheres na força de trabalho em países que têm políticas mais generosas continuou aumentando, ao contrário dos EUA.

Conforme as mulheres exercem mais trabalho remunerado, os homens não aumentaram seus cuidados com os filhos e as tarefas domésticas na mesma medida —outra surpresa para as mulheres jovens que, segundo as pesquisas, esperam parcerias mais igualitárias.

Gerações de meninas ouviram dizer que podem conquistar tudo o que quiserem, inclusive ter uma profissão e filhos —e muitas mulheres o fizeram.

Mas ao mesmo tempo o trabalho e a criação de filhos se tornaram mais exigentes.

O resultado é que as expectativas das mulheres parecem estar superando as realidades das políticas públicas, da cultura no local de trabalho e da vida familiar.

Fonte: Folha de São Paulo – 25.09.2018.

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