Empreendedorismo

Empresas de Home Care faturam R$ 3 bi por ano

Por Roberta Massa B. Pereira | 21.06.2016 | Sem comentários

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Depois de alguns anos operando e dando plantões num hospital em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, na década de 80, os cirurgiões Ari Bolonhezi, Emilio de Fina Junior e José Eduardo Ramão identificaram um problema comum a muitos de seus pacientes.

Passada a cirurgia, eles não precisavam mais de toda a parafernália de um hospital, mas de serviços mais simples, como enfermeiros capazes de medicá-los e camas adaptadas. Fizeram uma pesquisa e descobriram que havia pouquíssimas empresas no Brasil especializadas nesse tipo de assistência, mas que esse era um mercado em expansão nos Estados Unidos.

Os médicos decidiram, então, virar empresários. Com a sobra de caixa do consultório que já tinham, alugaram equipamentos como cadeiras de rodas e balões de oxigênio. Também firmaram um contrato com uma cooperativa de médicos e enfermeiros e fundaram a Home Doctor. Inicialmente, a empresa atendia apenas pacientes em estado mais grave, que precisavam de internação.

Hoje também oferece serviços mais light, como acompanhamento psicológico e fisioterapia. A Home Doctor acabou sendo pioneira num setor que agora cresce de forma acelerada no país. Existem cerca de 400 concorrentes, que faturaram ao todo 3 bilhões de reais em 2014.

A Home Doctor é uma das maiores empresas do segmento: está em 73 cidades nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, além do Distrito Federal, e fatura 200 milhões de reais. “No início, queríamos ficar só em São Paulo, mas os planos de saúde nos procuravam e resolvemos atendê-los”, diz Bolonhezi, de 58 anos.

Essas empresas caíram nas graças dos planos de saúde porque os atendimentos em casa são mais baratos do que em hospitais. “Tivemos uma redução de custos de 60% com essa troca”, diz José Windsor, presidente da operadora de saúde Unimed de Campinas, no interior paulista.

Por isso, apesar de essa não ser uma cobertura obrigatória dos planos, muitos a oferecem — o que ajuda a explicar o crescimento do setor. O preço de uma diária de internação domiciliar varia da média de 1.000 reais à de 5.000 reais, dependendo dos serviços utilizados. Em hospitais, pode chegar ao dobro disso.

A expectativa é que a demanda continue a aumentar devido, principalmente, ao envelhecimento da população. Mais da metade dos clientes dessas empresas é formada por idosos (também há vítimas de acidentes e portadores de doenças crônicas). Essa perspectiva tem atraído empresários do setor de saúde e investidores.

A varejista de medicamentos 4BIO, controlada pela rede de farmácias RaiaDrogasil, deixou de apenas vender medicamentos para oferecer também serviço de aplicação, entrando no setor de atendimento domiciliar. “Hoje, 30% de nosso faturamento vem disso, e acreditamos que essa será nossa maior área de crescimento”, diz André Kina, fundador e presidente da 4BIO.

Em 2014, um executivo da gestora de fortunas GPS com ex-funcionários da rede de laboratórios Fleury e da gestora Gávea compraram a Dal Ben, empresa fundada por uma enfermeira na década de 90 e que hoje fatura 28 milhões de reais.

“O objetivo é oferecer mais serviços e comprar concorrentes, porque esse é um setor bastante pulverizado”, afirma Alexandre Olivieri, membro do conselho de administração da Dal Ben que já foi diretor financeiro da fabricante de bens de consumo Hypermarcas e da varejista Fast Shop. Nos Estados Unidos, as maiores empresas do setor têm capital aberto.

Uma delas, a Brookdale Senior Living, vale 3 bilhões de dólares. O grande risco desse mercado é trabalhista. Poucas empresas (a Dal Ben entre elas) contratam os funcionários que fazem os atendimentos na casa dos clientes. A grande maioria tem contratos com cooperativas de médicos e enfermeiros. Há dois anos, o Ministério Público do Trabalho (MPT) decidiu que os funcionários devem ser contratados.

O MPT já havia emitido uma norma semelhante direcionada à Med-Lar, que faz parte do grupo Tempo Assist, listado em bolsa — a Med-Lar, em razão da queda na rentabilidade, fechou as portas em 2015. As demais empresas do setor continuam operando no esquema de cooperativa.

Se isso continuar, o MPT deverá entrar com ação civil pública contra os planos de saúde que oferecem esse tipo de assistência (a FenaSaúde, associação que representa os planos, não deu entrevista). A queda de braço pode deixar esse serviço mais caro, mas dificilmente os pacientes vão preferir voltar aos hospitais.

Fonte: EXAME-21.06.2016

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