Saúde

Presidente da UnitedHealth fala sobre como construir um sistema de saúde forte

Por Roberta Massa B. Pereira | 01.06.2017 | Sem comentários

O presidente do UnitedHealth Group Brasil conta como o grupo ajuda a construir um sistema de saúde forte, comprometido com a qualidade e com o respeito pela sociedade  

Oftalmologista Claudio Lottenberg, 56 anos, é um líder nato.

Atual presidente do UnitedHealth Group Brasil, figurou, recentemente, em 20º lugar no levantamento da consultoria espanhola Merco, que aponta os 100 líderes de negócios com melhor reputação no Brasil.

Mas quem olha para o bem-sucedido médico e gestor talvez não perceba quanto é dura a sua rotina, tamanha tranquilidade que ele deixa transparecer.

Claudio, na verdade, é um incansável trabalhador, daqueles que acordam antes de o sol raiar.

E seu cotidiano é extenso e atribulado: cuida do corpo e da saúde, da família, clinica e preside uma empresa forte e de grande credibilidade.

Religioso e espiritualizado — educado dentro dos preceitos judaicos —, estimula a combinação de medicina e fé. “Não há como desassociar as duas.

Devem caminhar juntas”, diz o também autor de dois importantes livros para o setor da saúde: A Saúde Pode Dar Certo e Saúde e Cidadania – A Tecnologia a Serviço do Paciente e Não ao Contrário, que o fez ganhador do Prêmio Jabuti.

Como se não bastasse tamanha responsabilidade assumida como presidente do UnitedHealth Group Brasil, continua na função de presidente do conselho deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein (instituição da qual foi presidente de 2001 a 2016).

“Trouxe na bagagem do Einstein a cultura judaica do inconformismo: penso que sempre podemos fazer melhor, nos dedicar mais e ampliar os resultados positivos”, conta.

Professor titular em políticas públicas de saúde do curso de MBA em Saúde do Insper, acredita que a medicina é muito mais que uma atividade mercantil. “É um direito social.”

E é exatamente com esse pensamento, alinhado com valores humanos, éticos e morais, que o médico e gestor acredita poder contribuir com a reputação do grupo presidido por ele.

Em entrevista para a revista One Health, Claudio Lottenberg fala sobre liderança, inovação, credibilidade, crise econômica e espiritualidade.

One Health- O que colabora para a boa reputação de um grupo de saúde, como o UnitedHealth Group Brasil?

Claudio Lottenberg É importante considerar o tempo de história desta organização, porque ninguém sobrevive durante 40 anos no papel de liderança de mercado sem ter uma trajetória pautada em valores éticos.

Esse é o primeiro sinal de uma boa reputação, o respeito conferido a essa história. Além disso, o UnitedHealth Group é sólido internacionalmente.

É a sexta companhia americana e líder na área de saúde nos Estados Unidos. No Brasil, temos um contingente que ultrapassa 30 mil colaboradores.

Acredito na diversificação com a qual o grupo trabalha: planos de saúde com capacidade abrangente, instalações de atendimento bastante diversificadas, hospitais de mercado, investimento em tecnologia de ponta e em capital humano.

Digo que estamos em expansão permanente. E isso colabora para a reputação que o grupo tem hoje, um ser irrequieto.

No que a missão da empresa reflete a importância da reputação do grupo?

A missão da empresa é muito coerente com seus valores (integridade, compaixão, relacionamentos, inovação e performance). Colocamos acima de tudo o compromisso com o paciente.

Para nós, o cliente está acima dos nossos próprios interesses. E são valores inegociáveis. Portanto, acho muito coerente o discurso de uma organização que enxerga o bem-estar do cliente como a razão para sua existência.

Nos últimos anos, houve uma diminuição de clientes de convênios médicos. Como é possível reverter isso?

A primeira questão que devemos lembrar é que há uma expectativa de que a economia do país volte a funcionar, trazendo crescimento e, consequentemente, gerando empregos.

Nós sabemos muito bem que a taxa de desemprego subtrai a quantidade de usuários do sistema suplementar de saúde.

Todo o setor sofre, mas não é só o setor suplementar. O setor público de saúde também, já que os impostos arrecadados diminuem.

A queda da atividade econômica é implacável para a saúde.

Além disso, os processos tecnológicos em medicina são caros e necessitamos de estrutura muito dinâmica, no sentido de incorporar tecnologias e, ao mesmo tempo, ser criativos para atender a população de forma sustentável.

Tenho insistido que as crises nas economias poderão desaparecer, mas na saúde a criatividade e a inovação devem ser permanentes, pelo envelhecimento e pela incorporação tecnológica.

 

“Meu grande desafio hoje é garantir a sustentabilidade econômica do grupo sem abrir mão da qualidade”

 

No nosso país, estamos no meio de uma crise ética e de valores. Na sua opinião, de que forma é possível contribuir para um cenário mais vibrante e positivo?

Em primeiro lugar cobrando transparência em tudo que está acontecendo. Discutir muito e envolver a sociedade para que as ações não caiam na impunidade.

De nada adianta levantar irregularidades sem que os responsáveis sejam punidos. Precisamos fortalecer principalmente os jovens, com valores fortes.

E isso só acontece com educação de qualidade, que reforça os conceitos de moralidade e da ética.

No momento em que se educa mostrando que a impunidade não é algo comum, ou seja, quem faz coisa errada é punido, você pode vir a ter uma sociedade melhor.

Mas para isso não podemos perder a referência do certo e do errado. O mais triste, no entanto, é que há uma crise de valores no mundo todo.

Presenciamos hoje cenários de agressão e de radicalismos que são muito desalentadores. Mas a gente não pode desistir.

Temos que achar que é possível trabalhar e contribuir para uma sociedade melhor.

 

“Não dá para dissociar ciência de espiritualidade. Já está provado pela ciência que a fé tem papel fundamental no processo de cura”

 

Como o grupo que o senhor dirige faz para alcançar a excelência de serviços, tratamentos e diagnósticos?

Tentamos impor aqui o pensamento de que tudo não é o bastante. Eu sou inconformista, detalhista e exigente comigo mesmo.

Eu acho que essa obsessão em querer sempre melhorar pode contribuir para o grupo que eu presido.

Temos trabalhado muito para buscar oportunidades de melhoria, aprimorando sistemas, buscando soluções criativas e inovando as custas de informação de qualidade.

Temos a obrigação de converter nossos dados em conhecimento.

O senhor é um grande estudioso. Isso ajuda?

Sim! Acredito nas mudanças e nas coisas que são pautadas pelo conhecimento. A intuição, por exemplo, é um instrumento de gestão. Ela tem um papel de mudança, ela aponta caminhos.

E a própria intuição tem uma explicação de caráter neurológico. Já está provado que as mecânicas intuitivas derivam de um amadurecimento neurológico que é fruto do aprendizado.

As pessoas não são intuitivas ao acaso. Elas são assim porque o raciocínio delas evoluiu para isso. Tudo na vida se constrói com dedicação.

Um indivíduo pode ter uma vocação para alguma coisa, mas ele tem que se preparar.

Eu posso dizer que eu sou um estudioso, porque acredito que grande parte da minha competência não depende só da minha vontade, mas do meu conhecimento e do meu esforço.

Indiretamente, me sinto responsável por 35 mil famílias que trabalham no grupo. Isso sem falar nos quase 20 mil médicos que são nossos credenciados.

Se eu for contar o número de pessoas que têm acesso aos planos de seguro saúde, são quase 4 milhões de pessoas…

Então, eu acho que uma pessoa que se propõe a liderar um processo dessa natureza tem que se preparar, estudar, se dedicar incansavelmente.

Senão seria uma falta de respeito com os meus semelhantes e, no limite, uma falha de natureza ética.

Quem no universo da medicina é uma inspiração?

Posso falar de algumas pessoas: o meu antecessor, doutor Edson de Godoy Bueno (fundador da Amil, morto em fevereiro de 2017), que foi um dos homens mais visionários e empreendedores que eu conheci na vida, e também o doutor Adib Jatene, uma inspiração para todos os médicos brasileiros.

Não apenas pela sua competência como cirurgião, mas pela sua dedicação às questões de saúde do Brasil.

Um dos últimos estudos que o doutor Jatene conduziu diz respeito à formação profissional do médico no país.

Podemos falar sobre Fleming, dada a natureza da descoberta da penicilina e por que não citar Freud?

Mas acima de todos cito meu pai, que era um homem correto e muito intuitivo na maneira de se relacionar.

Comerciante gravateiro que tinha um grande respeito pelo conhecimento das pessoas e não pelas suas posses.

Era um judeu do povo do livro, não um judeu do povo das posses. E, claro, minha mãe, conciliadora e generosa. Sorte de quem tem bons exemplos em casa.

O que o motivou a escolher seu caminho profissional?

Meu irmão mais velho, Simão Lottenberg, excelente médico, sempre foi uma referência para mim.

Acredito também que a própria tradição judaica colaborou, pois respeitamos muito aqueles que cuidam da saúde.

Sem falar que, já no exercício da medicina, me inspirei a fazer coisas maiores, porque percebi que ela é muito mais do que uma atividade mercantil. É um direito social.

Eu me identifiquei com isso e fui aprender sobre solidariedade e a dar uma conotação que transcendia a minha responsabilidade como médico em todos os locais por onde passava.

Não fui apenas um residente médico. Sempre participei ativamente de iniciativas sociais.

E a oftalmologia, é uma paixão?

Uma das grandes paixões da minha vida, porque é uma especialidade muito resolutiva.

É muito prazeroso se aproximar de uma pessoa que não estava enxergando e fazer com que ela volte a enxergar!

A oftalmologia consegue conciliar todos os campos da medicina: prevenção, diagnóstico, tratamento e cura.

E me deu a capacidade de ver a medicina como um processo, o que é muito bom para um gestor.

O senhor esteve à frente do Hospital Albert Einstein. O que foi fundamental nessa experiência?

O Albert Einstein é um hospital que é referência mundial. Trago para o grupo que eu presido hoje a experiência de ter trabalhado em um local que é 100% focado na excelência.

Outra coisa importante que lapidei no Hospital Albert Einstein é a cultura do inconformismo.

Que aliás faz parte da tradição judaica: nunca estar contente com aquilo que você tem. Querer sempre melhorar.

Quais os maiores desafios que o senhor tem de enfrentar à frente do grupo?

Em primeiro lugar, é garantir a presença dos valores organizacionais com efeito na sustentabilidade econômica do grupo sem abrir mão da qualidade e do foco no paciente.

Em segundo lugar, integrar o braço da prestação de serviços (que prima pela qualidade e excelência) com o braço da operadora (que tenta racionalizar os gastos).

São visões antagônicas, mas pretendo integrá-las e fazê-las caminhar com equilíbrio e com justiça.

E por último e mais importante: trabalhar para a minha missão mais desafiadora, que é fortalecer a liderança organizacional.

Como o grupo se mantém inovando?

Inovação é o compromisso intrínseco de quem é líder. Para se manter assim, precisamos sempre investir em excelência, no compromisso com a qualidade e na atenção aos detalhes.

Nossa companhia tem processos formais que incentivam atitudes de inovação, e a proposta de escutar, permanentemente, o cliente, quem sabe, seja a mais importante dessa natureza.

Tem que olhar o mundo e não se fixar somente nos produtos que temos, mas nas necessidades dos nossos clientes.

Para onde o senhor acha que a humanidade caminha no que se refere ao bem-estar e à saúde?

Começamos a perceber que as questões ligadas à saúde transcendem a assistência médica.

Hoje até o conceito de cidade sustentável faz parte da saúde.

A sociedade está buscando um alargamento em movimentos que possam melhorar o seu estado de saúde.

Fica patente que a saúde tem oportunidades de ganhos em várias frentes que não só na medicina.

Na sua opinião, espiritualidade e ciência podem caminhar juntas?

Entendo que não dá para dissociar as duas. É um casamento sem divórcio.

Já está provado pela ciência que a fé tem papel fundamental no processo de cura e em algumas doenças ela pode dar apoio até maior do que muitos recursos terapêuticos.

Einstein já dizia que a religião sem ciência é muda e a ciência sem religião é surda.

Fonte: Revista One Health – 01.06.2017.

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