Saúde

Rio em crise vive caos na saúde pública com reflexos até em hospitais federais

Por Roberta Massa B. Pereira | 29.08.2017 | Sem comentários

Rio em crise vive caos na saúde pública . A aposentada Edeise de Almeida, 65, foi diagnosticada em maio do ano passado com câncer de mama.

Dois meses depois, iniciou tratamento no Inca (Instituto Nacional do Câncer), unidade federal que funciona no Rio de Janeiro.

A paciente completou a quimioterapia em janeiro, mas somente três meses depois, em abril, conseguiu marcar a cirurgia de retirada da mama.

A radioterapia teve início só quatro meses mais tarde.

A demora entre acabar uma etapa do tratamento e começar a seguinte tem sido constante na rede de hospitais federais do RJ, referência em doenças de alta complexidade.

Roseni Barbosa, 48, diagnosticada em 2014, só conseguiu agendar a mastectomia em março deste ano, ainda que a lei determine que o tempo entre o diagnóstico e o tratamento não supere 60 dias.

A crise no Rio que deteriora a situação dos hospitais estaduais, chega agora à rede federal -sendo seis hospitais que atendem a diferentes especialidades e três institutos dedicados, como o Inca.

A situação se agravou com o fim de contratos temporários com médicos e da falta de concursos, congelados desde 2010 pelo Ministério da Saúde.

O colapso da rede estadual sobrecarrega também emergências e ambulatórios federais.

Novos pacientes têm dificuldade de iniciar tratamento, e os antigos sofrem com a demora dos procedimentos.

Na sexta (18), o conselho de medicina local entrou com ação na Justiça Federal pedindo que médicos temporários tenham seus contratos renovados imediatamente.

Hoje, a fila para cirurgias na rede está em 15,5 mil pacientes, segundo a Defensoria Pública da União.

A fila é gerida pelo governo do Estado, mas pacientes alegam demora mesmo após darem entrada nas unidades federais.

A defensoria encontrou 70 mulheres à espera de mastectomia no hospital federal de Bonsucesso.

Outras 50 estão na mesma situação no hospital do Andaraí, na zona norte.

Lean Six Sigma

Folha apurou que há deficit de médicos, materiais e medicamentos em diversas unidades.

Rita Pereira, 64, paciente de Bonsucesso, teve de pagar do próprio bolso medicamento para tratamento de câncer que faltou por três vezes neste ano e que deveria ser distribuído de forma gratuita.

Serviços estão deixando de existir por falta de equipes. Em Bonsucesso, faltam anestesistas, o que dificulta a realização de cirurgias de rotina.

Transplantes de fígado e córnea foram extintos. Dos sete oncologistas que atendiam no local, apenas quatro ainda dão plantão. A emergência funciona há quase cinco anos em contêineres.

“Nunca vi crise tão grave quanto a de agora”, diz o chefe do corpo clínico de Bonsucesso, Balthazar Fernandes, 65, desde 1977 na unidade.

“Os pacientes esperam até seis meses para marcar uma cirurgia. Nos procedimentos oncológicos, a situação é ainda mais grave porque o câncer pode continuar a avançar.”

Vistoria do Conselho de Medicina do Rio no início deste mês constatou problemas graves em três unidades.

Na oncologia do hospital do Andaraí, dos sete médicos (seis concursados), pelo menos dois estão de licença e outros três estão prestes a se aposentar. Resultados de biópsias podem levar até 120 dias.

No Cardoso Fontes, 28 pacientes estão internados em área para 19. Outros eram atendidos em cadeiras, por falta de macas.

Um com morte cerebral ocupava a sala de sutura e sete pessoas eram atendidas nos corredores.

A crise se soma ao caos dos hospitais estaduais. O governo pena para pagar servidores em dia, além de atrasar pagamentos de fornecedores.

No Getúlio Vargas, os setores de proctologia e urologia foram fechados. O Carlos Chagas fechou ginecologia, ortopedia e cirurgia plástica.

O Pedro Ernesto funciona por meio de liminar para receber recursos. Uma ação garantiu que gases e luvas fossem confiscadas do almoxarifado do Estado e enviadas ao Hemorio.

No Instituto de Assistência dos Servidores, fraldas geriátricas são substituídas por sacolas de supermercado.

O drama também chegou aos hospitais municipais, e as unidades já fazem atendimento em corredores e há falta pontual de materiais.

O desempregado Roberto da Silva, 60, esteve no Salgado Filho para uma ressonância magnética.

Teve de remarcar devido a problema no equipamento, de gestão do Estado. “A população já não tem mais para onde correr.”

Outro lado

Procurado, o Inca afirmou que as pacientes citadas estão sendo tratadas de acordo com “protocolos médicos consagrados mundialmente”.

Folha pediu informações sobre queixas de demora em tratamentos em geral, mas o instituto se negou a comentar de forma genérica.

Informou que a demora no caso de Edeise ocorreu em razão de um problema que ela teve no braço e que dificultou o início da radioterapia.

Sobre Roseni, negou que ela constasse na lista de pacientes, embora ela seja assistida por uma ONG que ajuda exclusivamente pacientes do Inca.

O Ministério da Saúde disse que os seis hospitais federais tiveram, no primeiro semestre, aumento de 9% nas consultas e 6% nos procedimentos em relação a igual período de 2016.

O ministério negou fila de mastectomia e afirmou que houve aumento de 60% das cirurgias.

O ministério promove uma reestruturação dos hospitais federais que prevê especialização em cada uma das unidades em determinadas áreas.

O objetivo é ampliar em 20% os atendimentos em oncologia, ortopedia e cardiologia.

A secretaria municipal de Saúde, da gestão Crivella (PRB), afirma que o hospital Salgado Filho vive aumento de demanda devido à crise em unidades administradas por outras esferas de governo e aumento de pessoas que perderam seus planos de saúde. Eventuais faltas de alguns insumos podem ocorrer, diz.

A Secretaria Estadual de Saúde, da gestão Pezão (PMDB), disse que todas as unidades estão “em funcionamento”, mas, devido à crise, o orçamento da pasta teve redução de R$ 1,4 bilhão neste ano.

Fonte: Folha de São Paulo – 29.08.2017.

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