Internacional

Sistema público americano de saúde mental não consegue evitar chacinas

Por Roberta Massa B. Pereira | 26.02.2018 | Sem comentários

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Sistema público americano de saúde mental não consegue evitar chacinas. Mesmo que se tratem os potenciais atiradores, não há cura para jovens com fantasias violentas. 

Há algum tempo, dois policiais chegaram com um rapaz de 21 anos na unidade de emergência onde atendo como psiquiatra.

Os pais haviam chamado a polícia ao ver suas publicações on-line sobre morte iminente na escola técnica onde estudava e sobre Columbine.

O irmão contou que ele comprara uma arma.

Quando o entrevistei, ele negou tudo. Não tinha histórico de doença mental e afirmou não precisar de tratamento.

Eu tinha de avaliar se ele preenchia os critérios para ser internado a contragosto no hospital psiquiátrico.

Cada massacre reabre o debate sobre as causas dessa violência e como evitá-la.

Quem se opõe a restringir as armas geralmente se volta para o sistema de saúde mental.

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Os psiquiatras não deveriam identificar alguém perigoso como Nikolas Cruz.

Acusado pela chacina em uma escola na Flórida, no dia 14, após ele ter assustado colegas, ferido animais e feito ameaças?

Cruz já teve depressão, fez terapia e passou por uma avaliação mental de emergência, em 2016.

Por que, os críticos questionam, ele não recebeu tratamento?

Não podemos impedir jovens instáveis e revoltados de comprar armas?

É mais difícil do que parece.

O sistema público de saúde mental não identifica a maioria dessas pessoas porque elas não procuram ajuda.

E quando o fazem, leis que protegem as liberdades civis dos doentes impõem limites a tratamentos a contragosto.

Em grande parte dos EUA, o paciente tem que representar um perigo a si e aos outros para ser internado.

É isso que força a pessoa a se tratar quando está tão afetada pela doença que não pode decidir.

O rapaz que tinha escrito que queria atirar nos colegas estava calmo, era educado e estava disposto a cooperar.

Explicou que as mensagens eram bravata. Negou ser suicida ou homicida; nunca tinha ouvido vozes.

Admitiu ser alvo de bullying e se ressentir da vida social dos colegas, mas negou que pudesse se tornar violento com eles.

Estava claro que ele não tinha doença psiquiátrica que justificasse a hospitalização involuntária, mas eu relutava em liberar alguém cuja história repetia a de assassinos.

Eu poderia alegar precisar mais tempo para observação e interná-lo, mas, em uma semana, ele poderia procurar um ouvidor e dizer que tinha sido confinado contra a vontade.

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Alguém que o libertaria ao concluir, como eu, que ele não era perigoso por causa de alguma doença mental.

Se o ouvidor não o liberasse, o hospital teria 14 dias para agir.

O psiquiatra trataria delírios, paranoia, impulso suicida, comportamento maníaco, autoflagelação, alucinação e catatonia, mas não há cura certa para insegurança, ressentimento e ódio.

O único benefício de interná-lo seria proibi-lo de comprar armamento em um estabelecimento com licença federal.

E isso não adiantaria se ele já tivesse armas ou procurasse um revendedor que não checasse seu histórico.

Internei o paciente, que foi solto pelo ouvidor dois dias depois.

Ele não tomou remédios, não transgrediu a proibição de comprar armas em loja licenciada e deixou o hospital como entrou.

Como muitos outros, não vai procurar terapia, e não há como lhe impor esse tratamento.

O sistema de saúde mental não consegue impedir atentados e chacinas porque raramente a doença mental é a causa desse tipo de violência.

Mesmo que se tratem todos os potenciais atiradores, não há cura certa para jovens revoltados que nutram fantasias violentas.

E as leis para impedir que doentes mentais adquiram armas são limitadas e facilmente dribladas.

Em vez de esperar pela imposição de tratamento psiquiátrico a todos que emitam sinais de alerta, deveríamos nos concentrar em manter esses jovens longe das armas.

Fonte: Folha de São Paulo-26.02.2018.

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