Saúde

Receio e otimismo marcam chegada de médicos a cidade que perdeu 12 cubanos no CE

Por Roberta Massa B. Pereira | 03.01.2019 | Sem comentários

Granja tem o segundo pior IDH do Ceará; consultório tinha boneca em homenagem à cubana

Após 66 km percorridos em uma hora e meia, quase todo trajeto em estrada da terra, o médico Ivo Freitas Cavalcante, 44, chegou ao distrito de Adrianópolis, onde trabalhará nos próximos meses ou, quem sabe, anos.

“É maior do que imaginava”, disse, ao avistar as ruas com pedregulhos pela janela da caminhonete que o levou. 

Um mercado, um posto de gasolina, uma loja de móveis e, finalmente, a unidade básica de saúde da família Maria Irene de Sousa, o destino final da viagem de uma quarta-feira de dezembro.

Lá dentro, 16 pessoas esperavam Cavalcante, funcionários do posto, agentes de saúde e a enfermeira Nikkaele Martins Caldas, que, nos últimos 33 dias, havia sido a responsável pelo local após a médica cubana Dayana Pérez ter ido embora. 

Na porta do consultório do novo médico, uma boneca de papel pregada era uma homenagem à ex-médica.

Uma funcionária a retirou assim que Cavalcante entrou para seu primeiro dia de trabalho, por meio do programa Mais Médicos, do governo federal.

A cidade cearense de Granja, de pouco mais de 54 mil habitantes, está a 330 km de Fortaleza.

Tem, segundo o IBGE, o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do estado e foi uma das mais afetadas do país com o fim do acordo entre os governos brasileiro e cubano para o Mais Médicos. 

Granja perdeu os 12 profissionais que tinha, todos cubanos, e foi a que teve a maior saída de médicos entre as cidades classificadas no programa pelo governo federal como área de extrema pobreza.

Em uma escala até oito, que são as áreas indígenas, as de extrema pobreza receberam número 7.

Todas as vagas foram preenchidas após o primeiro edital do governo em 20 de novembro, mas somente sete assumiram.

Um, que chegaria do Amazonas, pediu para fazer plantões no hospital da cidade, para aumentar a renda.

A falta de garantia pela prefeitura de que teria plantões disponíveis para ele o fez desistir.

A esperança de Valônia Siqueira Benício, 33, coordenadora da atenção básica da secretaria de saúde de Granja, é que os editais mais recentes preencham as vagas restantes. 

Valônia acompanhou, como havia feito com os outros seis médicos, a chegada de Cavalcante ao povoado de Adrianópolis.

O receio dela, como diz ser de parte da população, é que ele não finque raízes e vá embora logo. 

A primeira impressão, porém, foi boa.

O médico se interessou por adquirir terras na região para levar seus seis cachorros de raça e cabras, que cria hoje próximo a Fortaleza, de onde é. 

“Quando abriu o edital, procurei cidades com clima mais ameno para os cachorros.

Pensei inicialmente em Viçosa [do Ceará, cidade de serra a 60 km de Granja], mas não consegui. Granja foi o mais próximo.” 

Na chegada do médico, a apresentação foi feita pela enfermeira Nikkaele.

Ela nominou todos os agentes de saúde, que têm a missão de visitar 12 sub-distritos dentro de Adrianópolis (engloba mais de 10 mil pessoas), relatou os equipamentos e medicamentos que o posto possui e falou de procedimentos de atendimento. 

“Aqui temos um problema, um vício.

O pessoal chega já querendo algum remédio específico”, disse a enfermeira ao novo médico.

Cavalcante teve duas preocupações no contato com a nova equipe.

A primeira, de logística. Como irá, por exemplo, transportar um paciente mais grave ao centro da cidade? 

Aquela unidade não tem ambulância, e o carro alugado pela prefeitura, algumas vezes, não funciona como deveria.

No próprio dia da chegada de Cavalcante o responsável pelo trajeto não apareceu, e um outro funcionário da secretaria precisou levar o médico e a coordenadora Benício para Adrianópolis.

“O governo federal dá o médico, mas deveria também dar alguma outra estrutura, principalmente de logística”, disse o novo médico da cidade.

Ele ouviu que muitas pessoas, quando têm algo mais grave no local, nem o posto procuram.

Preferem pegar o carro, atravessar a divisa e ir ao estado vizinho do Piauí procurar um hospital.

São 96 km, mas, como é feito na maior parte em asfalto, o trajeto demora o mesmo tempo do que ir ao centro de Granja, a cerca de uma hora e meia.

A segunda pergunta foi se teria condições de fazer pequenas cirurgias –ele é cirurgião-geral.

Na época chuvosa na região, de janeiro a abril, muitas vezes Adrianópolis fica ilhado, sem acesso ao centro de Granja devido à péssima condição da estrada. 

“Essa é uma vantagem de ter os médicos brasileiros, que podem fazer essas pequenas cirurgias, por exemplo.

Os cubanos não podiam porque não tinham o Revalida [diploma revalidado no país]”, disse Benício.

A resposta ao médico foi positiva: seria providenciado o material necessário.

No dia 22 de outubro de 2013, a presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou em Brasília a lei dos Mais Médicos. 

Entre os oradores estava Romeu Aldigueri, então prefeito de Granja e hoje deputado estadual eleito no Ceará. 

Não à toa ele foi o escolhido para representar os prefeitos no evento.

No discurso contou que seu município, no início de 2013, contava com apenas 6% de cobertura de saúde básica. 

Após a chegada de profissionais do Mais Médicos, antes ainda da sanção da lei, esse número subiu para 66%.

Antes do fim do acordo entre Brasil e Cuba, estava em 100%.

Uma cidade que se acostumou a ter médicos, mas também se afeiçoou aos cubanos que por ali ficaram por mais de cinco anos.

“Todos eram queridos, o pessoal ficou bem triste com a saída deles”, disse Benício. 

Os cubanos fincaram raízes e ganharam a confiança da população.

Talvez por isso, logo no primeiro dia de trabalho, a médica Gicelma Braga Ferreira, 26, ouviu repetidamente: “Você vai ficar, não é doutora?”

Formada há seis meses, Gicelma optou pelos Mais Médicos pela estabilidade e pela possibilidade de, ao fim de sua participação, sair com especialização em saúde de família.

Sua primeira opção havia sido Santana do Acaraú, cidade mais próxima de onde vive com a família, em Sobral. 

Mas Granja não está longe, a 100 km. 

Ela foi alocada no distrito de Paula Pessoa, que, comparado com Adrianópolis, praticamente faz parte do centro de Granja: está a pouco mais de 20 km, e somente 6 km são feitos por estrada de terra.

“Estou achando bem tranquilo, gostando da equipe.

Pretendo ficar os três anos do programa”, disse.

Tranquilidade passa longe de Parazinho, onde está o médico Caetano José Sousa Frota, 38.

Quando a reportagem visitou a unidade de um dos distritos mais populosos de Granja, com cerca de 12 mil pessoas, mais de 15 estavam lá dentro. 

O posto é um dos que têm dois médicos por meio do programa do governo federal, mas a segunda vaga ainda não foi preenchida.

“A rotatividade de médico brasileiro na atenção básica é muito grande, então quando a população vê que chegou um médico, e é do Brasil, falam ‘vamos todo mundo hoje porque não sei se amanhã ele vai estar'”, disse Frota. 

Ele tem na ponta da língua os motivos que fazem ser alta a rotatividade de médicos brasileiros: falta de plano de carreira e atraso de salários.

“O atraso salarial nos municípios é um problema, você trabalha dois, três meses, recebe um, depois mais três, quatro meses e pega calote”, disse o médico ultrassonografista, que é de Sobral. 

“E tem a questão do plano de carreira.

Eu vou me propor a ir ao interior lá do Amazonas, vou ficar lá, mas se eu tiver uma garantia que daqui, cinco, seis anos vou ter uma ascensão salarial, e daqui a cinco, seis, dez anos vou estar na minha cidade, com certeza vários médicos iriam.

Agora o que acontece é que você largar família, sua cidade de origem, para interiorizar a medicina é complicado.”

Fonte: Follha de São Paulo – 03.01.2019.

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