Opinião

‘Corujão’ não ataca as questões cruciais da saúde em SP

Por Roberta Massa B. Pereira | 10.01.2017 | Sem comentários

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O programa Corujão da Saúde começa nesta terça (10) em três hospitais privados e filantrópicos de São Paulo com a meta de zerar, em 90 dias, a fila de cerca de 500 mil pedidos de exames.

É uma medida emergencial e temporária como a própria gestão de João Doria (PSDB) reconhece.

E as medidas concretas, os projetos de fôlego para melhorar a saúde de São Paulo, quando serão anunciados?

O que a atual gestão pretende fazer para atacar os problemas cruciais que geram as filas de espera, como falhas na atenção básica de saúde, que levam a pedidos desnecessários de exames e encaminhamentos a especialistas?

Nada ainda de concreto foi anunciado. No programa de governo do tucano, essas questões são mencionadas, mas não há detalhamento.

Doria promete, por exemplo, “reforçar o atendimento primário à saúde pelo preenchimento das vagas existentes nas equipes do Programa de Saúde da Família e das Unidades Básicas de Saúde, requalificando e valorizando os profissionais”.

Mas ainda não disse como e quando isso vai acontecer.

A falta de integração entre as unidades municipais e estaduais de saúde é outro entrave que carece de uma resposta rápida.

O paciente fica perdido dentro de um labirinto de unidades de saúde municipais e estaduais que não se conversam entre si.

A confusão é tão grande que mesmo essa fila de 500 mil pedidos de exames é questionada por alguns especialistas.

É muito comum as pessoas se inscreverem em vários serviços de saúde e, quando conseguem uma vaga num lugar, o nome continua no outro.

Afinal, o que Doria fará para organizar essa bagunça?

Por enquanto, as únicas integrações oficialmente anunciadas pela gestão de Dória foram dos números de emergência 190, 192 e 193 (haverá apenas um número na cidade) e que o Estado irá ceder quatro carretas do Programa Dr. Consulta para a gestão municipal para ajudar a diminuir a fila de exames.

Mais um paliativo que não faz sentido. Especialistas dizem que fica muito barato oferecer esses serviços em unidades fixas, de modo a incluir esses pacientes no sistema para serem cuidados de forma contínua.

Um exemplo sempre citado é o caso dos mutirões de oftalmologia.

O paciente faz exame, recebe tratamento, mas, se o problema foi causado por diabetes, precisará ser acompanhado na atenção primária para manter a doença sob controle. Do contrário, ficará cego, além de outros danos à saúde.

Se a cidade perseguir uma atenção primária que funcione de fato, com a ampliação das equipes de saúde da família, por exemplo, a demanda por especialistas, exames e internações seria muito menor. Até 80% das queixas poderiam ser resolvidas na atenção básica, caso ela seja resolutiva.

Por que a atual gestão não elegeu a organização da atenção primária como prioridade? Provavelmente porque não teria a mesma repercussão gerada pelo “corujão”. De marketing, o prefeito entende.

A esperança é que, passada a euforia de início de mandato, dos factoides quase que diários, a equipe encare a área da saúde com a seriedade e a sobriedade que ela merece.

Fonte: * Cláudia Collucci – Folha de São Paulo-10.01.2017.

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