Opinião

“Alguém tem que pagar essa conta”, diz médico à frente da Amil

Por Roberta Massa B. Pereira | 09.10.2017 | Sem comentários

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À frente da maior operadora de planos de saúde no país, a Amil, o oftalmologista Claudio Lottenberg, 57, defende novas regras para os planos, incluindo a que permite que idosos tenham reajuste maiores nas mensalidades.

“Vivíamos 40 anos e agora passamos para 80. Alguém precisa pagar essa conta”, diz ele, que preside há um ano a operação brasileira do grupo UnitedHealth Group, que controla a Amil.

Sob o seu guarda-chuva está também o Americas Serviços Médicos, que congrega 34 hospitais.

Para ele, há muito desperdício no sistema de saúde por fraudes, falta de informações e processos. “Tem uma avenida para se trabalhar antes de falar que falta dinheiro.”

O médico, diz ele, está perdendo a credibilidade porque está se deixando levar por um “modelo compensatório ruim”.

“Pode ser que seja uma profissão que já pagou mais no passado e pode ser que vai pagar cada vez menos.”

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Folha – Há uma discussão na Câmara dos Deputados para a mudança nas regras dos planos de saúde. O que pensa sobre isso?

Claudio Lottenberg – Há contribuições, mas algumas são muito irracionais. Tem contribuição que pode fazer sentido até um grupo sugerindo que os planos coletivos não possam ter aumento além daquele que os planos individuais têm hoje. [risos] Se uma das maiores crises de mercado foi a falta de acompanhamento da elevação de custos dos planos individuais de acordo com a sinistralidade, imagine você utilizar o mesmo argumento que levou ao fracasso dos planos individuais para os coletivos? Você acaba achando que querem destruir o mercado.

Mas há muito abuso em relação a reajustes dos planos coletivos. Isso impulsiona, inclusive, a judicialização do setor.

Aí tem duas coisas: existe a judicialização, que é exigir o que deveria ser oferecido e não está, e existe a judicialização que ultrapassa os limites contratualizados.

Isso busca apoio numa estrutura que é um juiz que tem visão legalista, mas lida com a situação que nasce da caneta do médico que fez a demanda.

A gente tem visto que nem sempre são demandas apropriadas. É contra isso que a gente tem que lutar.

Por outro lado, quando se demanda algo, mas o contrato não previa, essa demanda extraordinária, se repetida, tem impacto como um todo. Pode se tornar insustentável.

A mecânica de seguro é contributiva, cada um coloca o seu pedacinho, apostando que eventualmente possa precisar. Isso é previsível em estudos estatísticos, baseado em uma lista de procedimentos e doenças que costumam acontecer.

Quando insere coisas não previsíveis, há o risco de puxar a corda e estourar, que é o que está acontecendo.

É por isso que os planos defendem a opção de um rol mais reduzido?

Quando a gente fala de um rol mais reduzido, ou mesmo de plano popular, estamos trazendo mais oportunidade de aporte de recursos para saúde.

Na Espanha, na Catalunha, as pessoas pagam um plano que dá direto a consulta com ginecologista, oftalmologista, clínico geral, e cobertura de atendimento de urgência.

Mas não à alta complexidade, internação hospitalar. Isso responde por 54% de todo custo da saúde no setor suplementar.

Eu posso decidir excluir isso e usar a rede pública [para a alta complexidade], já que eu pago impostos. Você desonera o setor público [com consultas, por exemplo] e dá o direito que a pessoa quer. E todo mundo ganha.

Corre-se o risco de judicializar e desfazer. Mas sou favorável que ele possa existir. É oportunidade de crescimento de mercado, de desoneração da saúde pública, criação de empregos.

A Câmara também discute a possibilidade de os planos dos idosos serem reajustados. O senhor concorda?
Essa discussão acompanha a que ocorre na Previdência. Se você quer que as pessoas se aposentem aos 65 anos, o reajuste das mensalidades tem que ir para os 65.

Nós levamos 200 anos para viver o dobro. Vivíamos 40 anos e agora passamos para 80. Alguém precisa pagar essa conta.

Se aumentar a capacidade contributiva cobrando mais, dá um respiro. O pessoal diz que está tirando o conforto dos velhinhos. É que nem emprego público.

Tem uma hora que precisamos ver que Estado inchado, protegendo todo mundo, é muito complexa.

Uma forma de conter custos é cortar desperdícios. Por que não se discute melhor isso?

Um terço do que a gente faz não precisaria fazer ou, se feito melhor, não seria da maneira que é feito. A gente tem as fraudes, mas eu prefiro nem comentar porque é tão desqualificado que dispensa comentários.

Deixando de lado esse capítulo, há muita redundância, há falta absoluta de controle de informações, processo ineficientes, falta padronização, o que não permite medir resultados.

Tem uma avenida para se trabalhar antes de falar que falta dinheiro.

Estudos mostram que a prevenção também é uma forma de cortar custos e de as pessoas envelhecerem melhor. Por que os sistemas de saúde investem tão pouco?

As discussões nascem, em geral, dentro de princípios econômicos financeiros, não de qualidade. Mas as pessoas estão começando a perceber que, quando discutem qualidade, a consequência aparece no lado financeiro. Mas é preciso vontade.

O mais curto é dizer que está caro, que você quer mais dinheiro. As pessoas gastam mal porque adoecem mal. É evidente que uma pessoa com uma doença crônico-degenerativa, como hipertensão, que toma remédio de forma adequada, tem menos chance de ter crise hipertensiva.

Mas tem que cuidar senão vai parar no pronto-socorro a cada três meses por descontrole. Muitas por falta de remédio mesmo.

Há um ano o sr. mudou de lado, saiu da direção do Einstein e assumiu a Amil. Qual a principal diferença?

Tenho uma vantagem. Continuo no sistema hospitalar, porque a UnitedHealth tem a America, com 34 hospitais. E continuo sendo médico oftalmologista.

Vejo razões de insatisfação em todas as partes. Mas vejo oportunidades e sinergias em todas elas.

Qual a grande discussão? São dois indicadores: o primeiro é ter um cliente satisfeito, feliz, seguro do que está acontecendo dentro de um sistema sustentável. Isso está pendurado em um grande vetor, o paciente.

A visão de cadeia produtiva ainda não existe. Qual a grande queixa? A operadora não quer pagar. Não é a operadora.

A operadora está tendo que reajustar uma sinistralidade que sobe acima dos 20%, muito acima da inflação. Quando ele volta com aqueles 20% e poucos, a empresa que paga o seguro saúde do profissional diz: “Não aguento mais”.

De 10% a 15% da folha de pagamento vão para o seguro-saúde. O médico diz que não recebe reajuste.

Mas o nosso cliente comum, o paciente, não aguenta pagar nem aqueles R$ 80 que você acha pouco.

É um setor que está com menos gente, mas talvez seja uma das poucas indústrias em que cai o número de clientes, mas aumenta o preço.

Mas são os hospitais os que mais puxam o custo…

Sim, mas é porque não consegue aprimorar a prática assistencial. Ainda está buscando mecânicas remuneratórias baseadas em coisas que não existem mais, que é o “fee for service”, um corpo clínico desorganizado.

A medicina não é diferente daquilo que nasça das mãos dos médicos. O prestador de serviço ganha pelo desperdício, o médico não consegue se organizar para atender melhor o paciente, ambos discutem pela lógica do dinheiro, a operadora reclama que está muito caro.

Mas ela não entende que é parte da solução. Ela tem que debater com o prestador para que tenha uma qualidade de prestação mais eficiente, com custo menor.

Aí vem o cara da prótese e quer ganhar dentro daquela margem de 35% e não entende que o mercado não está mais dessa maneira.

Como organizar isso?

A primeira coisa é reconhecer que estamos todos errados. Ou que estamos todos certos. Mas, se a gente não sentar todos do mesmo lado, será um problema.

O problema é que ninguém quer abrir mão do seu quinhão…

É lógico. Aí há interesses diversos. A nossa companhia não veio para o Brasil para ser vendida nem para fazer IPO (abertura de capital). Pelo contrário, ela fechou o capital. Significa que vai comprando ativos para manter conosco.

A gente quer que seja sustentável, dê lucro como qualquer outra empresa, mas, por outro lado, existe por aí uma pressão, um afã para que isso retorne no dia seguinte. Temos valores fortes. Estamos discutindo com os parceiros novas formas de remuneração.

Meu desejo é chegar, em um momento, para quem está comprando um produto Amil e dizer: este ano ano não vai ter reajuste, vamos dar desconto porque conseguimos administrar melhor a sua carteira.

O caminho é a mudança do modelo de remuneração?

É um deles. O outro é o envolvimento do paciente, entendimento de valor. O conceito da qualidade é mais do que engajamento, é inclusão, o paciente tendo um papel um pouco mais propositivo. Mudar uma cultura e uma forma de acelerar essa mudança é com o dinheiro, pela coparticipação e franquias.

São mecânicas que pressionam a entender que isso tem custo.

E o papel do médico?

O papel do médico é de tutela, de referência. O médico está perdendo um pouco isso porque está se deixando levar por um modelo compensatório ruim, e isso está afetando a credibilidade dele. Precisa evitar isso. Ah! Mas paga mal. É verdade.

Pode ser que seja uma profissão que já pagou mais no passado e pode ser que vai pagar cada vez menos. Os médicos têm que entender o que está acontecendo.

Fonte: Folha de São Paulo – 09.10.2017.

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